• Eduardo Regis

As Sociedades Secretas no Vodou

Frater Vameri



Imagem de Catharina 77 por Pixabay

Quem estuda o Vodou Haitiano acaba eventualmente se confrontando com as sociedades secretas Haitianas. É fácil classificar o assunto como sendo de importância menor, como se estas sociedades fossem detalhamentos de um sistema. Entretanto, a realidade é que estas sociedades são sistemas suficientes e que ao invés de limitar, expandem o universo do Vodou e também a cultura Haitiana.


Provavelmente as sociedades começaram a se desenvolver no caldeirão da Revolução Haitiana. Sabe-se com certeza que a partir da Independência do país em 1804, elas proliferaram. Laguerre argumenta que os Maroons (algo como quilombos) Haitianos se perpetuaram nestas sociedades. Algumas destas sociedades (que na verdade não tem uma existência necessariamente “secreta”), são estados em miniatura, com análogos próprios de poder executivo, legislativo e judiciário. Algo que poderia ter sido herdado desses "quilombos".


A mais famosa das sociedades secretas Haitianas deve ser a Bizango (batizada com uma derivação de “Ilhas Bissangos”). Sua fama se dá pelo seu poder, mas também pelo fato dela figurar no livro “The Serpent and the Rainbown” de Wade Davis, etnobotânico Canadense que teria sido iniciado nesta sociedade e que teria revelado o segredo da “zumbificação”.


A Bizango também é uma das sociedades das quais mais se tem informação. Por exemplo, em um verdadeiro estilo Maçônico, sabe-se que a entrada de um membro novo só se dá por convite. Ainda, o processo de iniciação é longo e é uma verdadeira provação da fidelidade do neófito.


Laguerre (novamente) afirma que a Bizango desenvolveu sua própria forma de Vodou. Ora, isto também deve ter ocorrido em outras sociedades, já que o Vodou é algo praticamente indissociável da realidade e do cotidiano do Haitiano. Desta maneira, a adoção de um conjunto de regras e de um determinado ethos provavelmente acaba gerando uma fusão que cria uma nova expressão espiritual. Aqui os detalhes ficam mais escassos, pois os juramentos de segredo são fortes e cobram seu preço. Portanto, não se sabe bem como é esta expressão de Vodou da Bizango.


A sociedade Bizango (e também outras) apresenta força principalmente no Haiti rural. Nestes locais,  é possível que atuem como uma rede de proteção e de certa manutenção da ordem. Assim, não é fora de propósito traçar paralelos entre um estado ausente e o surgimento de sociedades como estas, se quisermos observamos o fenômeno por um ângulo possível.


Ainda, é importante notar que estas sociedades são “apadrinhadas” por determinados Lwas. Como já colocou muito bem o Frater Selwanga XVI° no ensaio “OTOA e o Vodou Haitiano” (que você pode conferir aqui: https://www.otoa-lcn-brasil.com.br/post/a-otoa-e-o-vodou-haitiano), este Lwa regente irá afetar a expressão do Vodou conforme este é comumente compreendido. É o caso da Bizango, da Sanpwel e também da La Coulevre Noire. Todas estas sociedades oferecem perspectivas únicas, de acordo com seus espíritos regentes.


Assim, podemos compreender facilmente como as sociedades secretas Haitianas ao invés de limitarem o Vodou, na verdade, os expandem. É mais uma testemunha de como o Vodou é uma espiritualidade diversa. Cumpre lembrar que de casa para casa de Vodou, mesmo fora das sociedades secretas, existe variação. Quando olhamos para as sociedades secretas entendemos também que cada Lwa parece ter seu próprio Vodou.


Referências e Bibliografia:

Deren, M. Divine Horsemen: Living Gods of Haiti

Laguerre, M. S. Voodoo and Politics in Haiti.

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