Viver o Vodou

Frater Vameri


Fotografia por LES STONE.


O Vodou é uma espiritualidade que precisa ser vivida. A abordagem ocidental e, principalmente, a abordagem comum no ocultismo ocidental não encontrará terreno fértil nessa espiritualidade. Gostaria de discutir brevemente essa ideia no artigo dessa semana, pois pode ser uma boa oportunidade para os interessados refletirem.


A sociedade ocidental, pautada pelo secularismo, relega à religião uma pequena gaveta em um armário gigante. Mais ainda, proíbe que a religião (ou, pelo menos, tenta) se misture com outros assuntos. Em resumo, a religião tornou-se algo da esfera individual e tentar integrá-la ao cotidiano é desafiador nesse contexto.


Na comunidade esotérica/ocultista então há a supervalorização da racionalidade. É mais “experiente” quem lê mais e sabe responder todas as perguntas sem titubear. Pouca ênfase é colocada em como se vive, como se entende as experiências e no quanto se faz efetivamente magia.


Apesar desse tipo de atitude tipicamente ocidental encontrar seu lugar no esoterismo e até mesmo conseguir se perpetuar em religiões típicas do ocidente, como o Catolicismo, ela não se enraizará no Vodou. Isso não quer dizer que o Vodou seja melhor ou mais interessante do que qualquer outro caminho. Essas avaliações são subjetivas e devem ser feitas por cada um. Discuto aqui uma coisa mais objetiva e que não deve ser colocada como artifício para nada além de uma simples constatação.


Escrevo isso, pois o Vodou pede que façamos. Pede que façamos o serviço, pede que façamos sacrifício e pede que a vida seja enxergada de maneira diferente. Quando alguém entra no Vodou, passa a entender que o mundo guarda mistérios e que há dimensões diversas na realidade. Ser do Vodou é ir contra o desencantamento do mundo – processo típico ocidental.


Ao trazer de volta ao o mundo o encantamento, o caminho no Vodou puxará o adepto para um ponto de vista novo e isso provavelmente levará a mudanças palpáveis. Ora, é claro que (como em tudo) é possível que determinadas pessoas se envolvam com o Vodou de maneira tão frágil que esse processo não consiga se estabelecer. Tudo bem. Como escrevi antes, este texto não é panfletário. Porém, ao adepto que se dedicar e que ousar colocar os dois pés na estrada do Vodou estão guardadas muitas transformações.


Em outras palavras, para nós, que não somos Haitianos e que, principalmente, somos ocidentais típicos, aparecerão desafios. Padrões precisarão ser quebrados. Raciocínios novos terão de ser construídos. Há grande riqueza nisso. Também há grande beleza. Entretanto, definitivamente, nada disso é vivido sem dedicação.


No fim das contas, cada um encontrará sua própria e única maneira de viver o Vodou. Assim como há um Vodou para cada Lwa (de certa maneira), haverá também uma maneira específica de ser um servidor dos Lwas para cada pessoa. Nesse exercício é possível descobrir que esse processo está dentro do processo de autoconhecimento – o que é não só incrível, como deverás importante.


Portanto, mais do que um fazer, o Vodou é um ser/estar. Conhecer os espíritos e entender como fazemos essa coisa que chamamos de serviço é como desenhar um mapa em miniatura de nós mesmos. Em outras palavras, conhecer o invisível nos remete diretamente ao seu reflexo, que é o visível. Não há mistério que não toque lá e aqui.


Assim, servir aos Lwas se revela como algo que vai além do meramente devocional. Servir aos Lwas é, de certa maneira, exercitar nossa própria natureza e exercer nosso papel no universo.

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