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Sigilos Voduístas – uma conexão “Martinismo-Vodou”?


Robert Ambelain, em seu livro sobre Martinismo de 1946, escreve com todas as letras que Martinez de Pasqually teve contato com a “feitiçaria vodu”[1]. É preciso notar como isso difere sutilmente da discussão que apresentei no texto anterior. Se antes eu estava mais preocupado em desvendar como Pasqually poderia ter tido contato com o Vodou, Ambelain, de maneira assertiva, afirma que este contato ocorreu. Esse fato é demonstrado por personagens que foram citadas no meu texto anterior e também sugerido por diversos apontamentos lá levantados. Entretanto, se é legítimo duvidar das minhas afirmações, é mais difícil duvidar de Ambelain.


Porém, Ambelain não será a personagem central deste ensaio. Na verdade, precisamos discutir agora uma figura central dentro da mitologia Martinista que ainda não havia sido trazida a esta discussão de maneira destacada. Trata-se de Jean-Baptiste Willermoz. Proeminente maçom na França e místico de sucesso, Willermoz foi discípulo direto de Pasqually, tendo sido admitido nos Élus Coëns pelo próprio. Além disso, Willermoz foi companheiro próximo de Saint-Martin. Ao recapitular esses dados conhecidos, pretendo trazer à mente dos leitores que Willermoz era próximo de Pasqually já antes da partida deste para São Domingos, o que levará ao fato que talvez seja mais relevante: durante a estadia de Pasqually na colônia francesa, ele e Willermoz trocaram diversas correspondências.


Com isto, podemos supor o seguinte: se Pasqually tivesse interesse no Vodou anteriormente à sua viagem ao novo mundo, Willermoz saberia; se Pasqually foi influenciado pelo Vodou em São Domingos, parte dessa influência teria sido passada a Willermoz por meio de correspondências (lembremo-nos de que não é possível asseverarmos que tenhamos conhecimento e registro de todas as cartas trocadas entre esses dois homens).


O motivo de Willermoz estar sendo mencionado é a menção feita a ele pela acadêmica Susan Buck-Morss em seu livro Hegel, Haiti and Universal History, publicado pela University of Pittsburgh press em 2009. Especificamente, vejamos a página 70 do dito livro:

[1] Le Martinisme. Robert Ambelian. 1946. Página 38 da tradução para a língua inglesa feita por Piers A.Vaughan (2002).



As figuras 10 e 11 apresentadas pela autora são colocadas lado-a-lado com o objetivo claro de permitir o exercício de comparação. Embora a autora supracitada não desenvolva bem este tema, é claro que ela propõe similaridades entre os dois desenhos. O primeiro, atribuído a Willermoz e relacionado com os Élus Coëns, data do final do século XVIII e apresenta elementos claramente inspirados nas tradições de grimório, como as figuras geométricas do círculo e da estrela de nove pontas, bem como determinados sigilos. Entretanto, saltam aos olhos os elementos de desenho livre, principalmente a grande serpente central e as figuras humanas e dos astros. A figura 11, por sua vez, representa um dos muitos vèvès, sinais geométricos que são utilizados no Vodou para representar e para chamar os Lwas. Esses sinais provavelmente têm uma origem africana, talvez advinda dos cultos de Mayombe e Bila, que ocorriam na Ilha de São Domingos, mas a influência ameríndia não pode ser completamente descartada, embora se revele cada vez menos provável.


A data exata da criação do desenho atribuído a Willermoz está, provavelmente, perdida. Entretanto, é possível que ele tenha sido criado após a morte de Pasqually, já que esta se deu em 1774. Por outro lado, não podemos afirmar com certeza que, em 1774 ou no final do século XVIII, o vèvè ora destacado já existisse. Por isso, precisamos entendê-lo, portanto, como um exemplo desse tipo de iconografia. Em outras palavras – no final do século XVIII é extremamente provável que houvesse sinais gráficos similares a este e a outros em uso em São Domingos.

Vejamos então mais alguns exemplos contemporâneos de vèvès, de maneira que tenhamos claros em nossa mente os estilos destes:





Uma das características mais marcantes dos vèvès é, além das linhas geométricas e padrões intricados, a aparição de figuras como se feitas por desenho à mão livre. Pela centralidade da figura da serpente no Vodou haitiano, temos que diversos vèvès, que não foram aqui reproduzidos, apresentam figuras de serpentes, como os de alguns espíritos Nagô e de Papa Loko, dentre outros.


Já discuti como o sigilo atribuído a Willermoz apresenta elementos da tradição dos grimórios. É verdade que alguns desenhos que aparecem em grimórios, como no Heptameron (1558), apresentam padrões geométricos, como o exemplo abaixo revela:


Ou ainda, estes exemplos, retirados do manuscrito Harley 6483:



No que parece ser ainda mais curioso, temos alguns sigilos do Grimorium Verum (Século XVIII):



Olhando os sigilos presentes no Grimorium Verum é possível imaginar que estes tenham influenciando Pasqually, Willermoz e Saint-Martin. Até é possível imaginar que tenham inspirado o Vodou, por meio da influencia que o esoterismo europeu e a Maçonaria tiverem nesta modalidade de crença.

Vejamos, por exemplo, o sigilo de Sergulath como dado no Grimorium Verum:



Podemos compará-lo a alguns vèvès para fazermos uma análise geral:





Não precisamos de muita imaginação para notar a semelhança na iconografia, com destaque para o formato de coração e para as linhas angulares. Porém, não se pode negar que estes sejam padrões relativamente espalhados ao longo do tempo e do espaço, de maneira que aparecem em diversas culturas sem que exista necessariamente um fio que os conecte. De toda a sorte, não é possível traçar uma genealogia precisa destes símbolos, de modo que não custa reforçar que estamos nos domínios da suposição. Além disso, é muito importante deixar claro que não estou preocupado aqui com a similaridade entre os espíritos. Portanto, para esta análise de simbolismo, não é relevante se Sergulath, por exemplo, tem, de fato, algo em comum com Erzulie ou Ayizan.


O que falta (ou é escasso) nos grimórios, mas abunda no Vodou, entretanto, como já destacado, é a iconografia serpentina. Também nos sigilos dos Élus Coëns, as serpentes parecem estar presentes de maneira marcada, como revelam os seguintes desenhos publicados no Angélique, encontrados em manuscritos de Saint-Martin:









Infelizmente, é muito difícil estimar a data exata dos sigilos acima reproduzidos. Entretanto, é fácil reconhecer as serpentes em ambos e até mesmo, no segundo, uma figura similar a um rosto, como no vèvè de Gran Bwa.


Os mais céticos poderão querer afirmar que no desenho atribuído a Willermoz, apresentado aqui como a Figura 10 do livro de Buck-Morrs, a serpente circular provavelmente é derivada do ouroboros. É certamente possível que este seja o caso, embora ela não esteja “comendo a própria cauda” e exista uma variedade de outras figuras entremeadas no esquema gráfico em questão. Entretanto, os exemplos imediatamente acima revelam figuras serpentinas que não estão em forma circular, sugerindo uma significação própria da serpente para além do ouroboros.


Após essa apresentação de diversos sigilos europeus, focando principalmente nos sigilos dos Élus Coëns, temos que o exercício comparativo com os vèvès do Vodou haitiano parece concluir que é possível que tenha havido uma influência destes naqueles. Entretanto, apontar isso com certeza é algo que não é possível fazer. É verdade que as iconografias de serpentes parecem apontar para uma raiz em comum, principalmente dado a ênfase que é dada na serpente no Vodou. Por outro lado, a serpente é uma figura proeminente na mitologia cristã, se bem que não necessariamente de uma maneira positiva. De fato, à luz dos ensinamentos de Pasqually, focados na reversão da queda, fica a pergunta: faria sentido a proeminência da serpente? Bem, se pensarmos na serpente de bronze como uma figura crística, podemos oferecer uma alternativa que se encaixe na cosmovisão de Pasqually. Ainda, tais serpentes poderiam ser representações dos seres humanos e dos anjos após a queda.


Para oferecer uma visão contraditória, é preciso comentar as conclusões de Mathieu G. Ravignat em Would the Real Elus Coëns please stand up, publicado na Hermetic Tablet de 2018. Neste artigo, o autor alega que seria improvável que Pasqually, um europeu de alta classe, fosse admitido pelos escravizados em seus segredos e que ele teria passado boa parte de seu tempo na colônia doente e encamado.


Essas duas observações não são corretas. As correspondências de Pasqually revelam um homem ativo. Pasqually parece ter ficado acamado e abatido apenas no período final de sua viagem, quando então, finalmente sucumbiu. Além disso, quando se estuda a história haitiana de maneira superficial pode se ter a impressão de que os mundos dos colonos e dos escravizados eram absolutamente separados, mas a investigação mais profunda revela que estes mundos se encontravam e se misturavam constantemente. Exemplos claros disso são os elementos sincréticos, a culinária, a língua e toda uma vastidão de filhos ilegítimos entre senhores e escravas (a grande maioria fruto de violência, com certeza). Um exemplo mais convincente para o público em pauta talvez sejam os elementos de Vodou que adentram a Maçonaria haitiana por meio de iniciados de origem mestiça ou pretos livres. É possível enxergar essa influência em um segredo que conta como Hiram Abiff é relacionado aos Gede...


Ainda, Ravignat também sustenta que análises feitas sobre o Manuscrit D’Algier teriam decifrado as influências do dito manuscrito, dentre as quais, claro, não estaria o Vodou. É preciso considerar se tais análises já não foram feitas com tal objetivo em vista ou, ainda, se os analistas como Georges Courts e Gilles Lepape teriam considerado o Vodou em seus estudos. Parece-me que tais análises foram construídas com bases eurocêntricas muito fortes. Além disso, o próprio Ravignat expressa todo o seu eurocentrismo e julgamento prévio na seguinte passagem do artigo citado:


In some Martinist circles a mysterious Haitian lineage is said to have survived. No French researcher takes this claim seriously…”[1]


Ao centrar a questão nas crenças e no viés dos pesquisadores franceses, Ravignat demonstra bem que não está preocupado em investigar, mas apenas em reforçar a “pureza” francesa do Martinismo.


Assim, os argumentos de Ravignat são pouco convincentes e quando confrontados com todos os fatos apresentados neste e no texto anterior, parecem não se sustentar, ainda mais quando consideramos que o Vodou é também parcialmente um produto da cultura francesa. Aliás, o que venha a ser o Vodou ainda é algo completamente desconhecido do mundo ocidental e objeto de inúmeras distorções: no Haiti, o que se pratica não é um culto africano puro, como pensam muitos, mas um culto derivado da fusão de cultos africanos trazidos pelo negro escravizado, do catolicismo francês dos séculos XVI e XVII e de algumas tradições locais dos habitantes originais da ilha, os Tainos.


O exercício comparativo aqui realizado, entretanto, torna-se valioso quando somado às discussões apresentadas no meu texto anterior sobre este tópico. De fato, quando consideramos que Pasqually esteve em São Domingos e que Ambelain dá como certa sua participação na “feitiçaria vodu”, nós podemos passar a enxergar os diversos selos teúrgicos de sua ordem com outros olhos. Talvez aí resida um dos grandes segredos desta charada, afinal. Nos olhos. Com a visão verdadeira, a visão espiritual, que vê além do véu e alcança o invisível, poderíamos talvez olhar as manifestações da expressão divina e compreender verdadeiramente como o Vodou e o Martinismo se encontram.



[1] Em alguns círculos Martinistas, diz-se ter sobrevivido uma linhagem haitiana misteriosa. Nenhum pesquisador francês leva essa alegação a sério...



Este post foi originalmente publicado em : https://filosofosdesconhecidos.com.br/2022/06/13/sigilos-voduistas-uma-conexao-martinismo-vodou/

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