Os Símbolos e o Sagrado

Frater Vameri


Imagem de Jordy Meow por Pixabay.


Rudolf Otto destaca que para entender algo como sagrado é preciso estar dentro do campo dos conceitos religiosos, ou seja, aqui ele necessariamente entende que se há sacralidade, há religião (OTTO, 2007, página 37). Para Otto, o sagrado não pode ser conceituado de maneira alguma, para ele há no sagrado um componente etéreo forte (OTTO, 2007, página 37). Aqui, Otto, claro, está influenciado pelo pensamento Judaico-Cristão. Principalmente quando pensamos no Nome Sagrado de Deus para os Hebreus e em sua qualidade de se inefável. Entretanto, ele mesmo destaca que isso não quer dizer que seja impossível apreender o conceito do divino (OTTO, 2007, página 34).


Otto utiliza o termo “numinoso” para falar de um estado e de coisas que estão em um estado de sacralidade (OTTO, 2007, página 38). Isto ele faz para se afastar do uso corrompido de “sagrado”, já espalhado amplamente. Otto discute que o numinoso causa em quem o experimenta uma sensação de diminuição, pois é arrebatador, Com isso, estaria criada uma “dependência” (OTTO, 2007, página 43). Ou seja, nos tornaríamos dependentes dessa coisa que nos diminui, pois frente a ela seriamos “impotentes”, talvez. É complexa essa relação de dependência, mas também pode passar pela relação clara de demonstração da dualidade “criador-criatura”.


Ainda, Otto classifica o numinoso por meio de um sentimento muito particular de temor. Algo muito próprio também do Cristianismo que tem a máxima de ser “temente a Deus” (OTTO, 2007, página 45). Otto também destaca outro aspecto, o “avassalador” (OTTO, 2007, página 51) e este tem a ver com o sentimento de dependência, já que é o que passa a impressão de que o numinoso é algo inalcançável, distante e absoluto. Otto ainda fala sobre a “energia” do numinoso, que seria o aspecto que “inspiraria” as pessoas no sentido de ações espirituais e religiosas (OTTO, 2007, página 55).


O aspecto do mistério também é ressaltado e explorado em forma de espanto (OTTO, 2007, página 57). Em outras palavras, é aquilo que causa uma estranheza e surpresa por não estar de maneira alguma dentro do repertório ordinário do homem. Otto diz que por mais que o numinoso seja inconcebível e por isso cause certo temor, ao mesmo tempo, ele é atraente (OTTO, 2007, página 68). Parece-me que justamente por ser espantoso e tão fora do universo reconhecível mais ordinário. Otto também diz que o numinoso não é possível de ser transmitido (OTTO, 2007, página 100). Aqui há clara ligação inclusive com a tradição esotérica que afirma que o “mistério” não pode ser transmitido, só experimentado. Portanto, Otto diz que o numinoso é passado por meios indiretos (OTTO, 2007, página 101).


Otto conclui que o sagrado é “uma categoria composta” por “componentes irracionais e racionais” (OTTO, 2007, página 150). Afirma que os aspectos do numinoso, que compõem o sagrado, são “sensações puras” (OTTO, 2007, página 150). Para ele os componentes racionais dão forma aos irracionais, ou seja, os reduzem para a compreensão (OTTO, 2007, página 177). Cabe destacar: para Otto os conceitos racionais não são capazes de apreender totalmente a divindade (OTTO, 2007, página 34). O irracional, por sua vez, é algo tão fora do ordinário que não consegue ser analisado pelos métodos da racionalidade (OTTO, 2007, página 97). Para Otto, finalmente, a “divinação” seria a faculdade que permite identificar o sagrado manifesto (OTTO, 2007, página 181).


Eliade parece compreender que o sagrado se faz presente pela sua própria manifestação e que também pode fazê-lo por meio de conexão a um símbolo (ELIADE, Símbolo, Página 549). Ele destaca que grande parte dos símbolos primitivos estão relacionados a objetos sagrados (ELIADE, Símbolo, Página 549). Assim, ele diz que as manifestações do sagrado (hierofania) acabam por ser tornar símbolos (ELIADE, Símbolo, Página 550). O que isso parecer querer dizer é que fatalmente o sagrado passa por um símbolo: ou ele já está vinculado a um ou então se tornará um. Em outras palavras: também não é possível conhecer o sagrado por outra maneira que não a indireta, em um certo alinhamento com o que o Otto entendia.


O símbolo então dá corpo e emana a hierofania, perpetuando-a (ELIADE, Símbolo, Página 550). Eliade pontua que há uma fronteira entre o sagrado e o profano e um elo entre estes que permite que o profano se sacralize, mesmo que não completamente (ELIADE, Símbolo, Página 551). Esta sacralização é feita pelo símbolo, que continua manifestando o sagrado. Se não a sacralização em si, pelo menos uma cumplicidade com o sagrado, uma “participação” nesse estado. O símbolo seria o que une então essas duas coisas separadas, que não podem se unir completamente, ou então, claro, o sagrado deixaria de existir. Entretanto, o símbolo não deixa de ser profano. Um amuleto religioso embora expresse o sagrado, não deixa de ser, no fim das contas, também um amuleto. É uma tensão curiosa.


Eliade destaca que “a experiência mágico-religiosa permite a transformação do próprio homem em símbolo” (ELIADE, Símbolo, Página 560). Isto aponta para o homem poder ser ele próprio a emanação do sagrado. Não o sagrado em si, mas um instrumento sacralizador. Eliade entende que o sagrado e o profano são duas maneiras distintas de existência. Sendo que o sagrado é sempre um tanto transcendente em relação ao profano (Dialética do Sagrado, página 105). Essa transcendência seria caracterizada por uma experiência ou sensação ou natureza que não nasce do mundo conhecido, mas de algum outro lugar, inalcançável naturalmente. Assim, só quando o sagrado se manifesta pelo profano, o homem toma conhecimento deste (ALLEN, página 105).


Coloca bem, Allen quando afirma que o termo Hierofania é uma maneira de Eliade de abarcar o fenômeno religioso por meio da percepção e da subjetividade do observador (ALLEN, página 106). Voltando a ideia do sagrado se manifestando pelo profano, parece claro que a única maneira do sagrado se destacar seria justamente se manifestando por meio do que é diferente. Assim, a oposição entre sagrado e profano seria uma oposição, de certa maneira, complementar (ALLEN, páginas 109-111).


Finalmente, Allen destaca que o homem vive uma experiência religiosa negativa em sua vida e que, portanto, busca a expressão positiva (ALLEN, páginas 116-117). Pois, o sagrado, para Eliade, é o que o homem religioso entende como a categoria de significado mais importante do mundo (ALLEN, página 124). Além disso, Eliade entende que a experiência religiosa é ambígua, pois pode ser maravilhosa ou aterrorizante (ALLEN, página 125).


No entendimento tanto de Otto quanto de Eliade, vemos que o sagrado exibe um aspecto de encantamento, terror e também de transcendência. Para estes autores, o homem não está vivendo o sagrado rotineiramente e quando a experiência do sagrado o “atinge”, o homem experimenta algo fora do comum. Eliade, entretanto, admite que o sagrado exista de uma maneira mais próxima e até mesclada ao profano, na figura do símbolo. O símbolo seria a maneira de o sagrado tomar corpo. De certa maneira, podemos comparar (um tanto grosseiramente) com a ideia de componente racional do sagrado de Otto. O símbolo é a maneira de o homem pegar aquela experiência e de sistematiza-la em algo palpável, compreensível e até mesmo de reviver (mesmo que parcialmente) a experiência. Otto, com seus componentes racionais quer tentar explorar como o homem faz para compreender, mas o símbolo de Eliade parece ir além, como um componente material sacralizador, mesmo que menos potente do que a experiência autêntica.


O símbolo, por essa capacidade “sacralizadora”, por dividir um pedaço do sagrado, funciona como um transmissor mais eficaz da experiência do que qualquer explicação ou racionalização. O símbolo causa uma “subexperiência”. Claro que isso depende de quem olha. Pois, para o observador descrente, talvez o símbolo seja apenas profano. Entretanto, não acredito que os componentes racionais de Otto sejam mais bem-sucedidos do que o símbolo em transmitir algo mesmo neste caso, pois a explicação do abstrato parecerá abstrata e poderá ser ignorada por quem quer que duvide da autenticidade da experiência.

Referências:

OTTO, R. O Sagrado. 2007. Editora Vozes.

ELIADE, M. A estrutura dos símbolos. In: Tratado de história das religiões.

ALLEN, D. Mircea Eliade Y El Fenomeno Religioso

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