• nicholaj9

O Asson no Vodou

Frater Selwanga


Fonte: https://sacredart.caaar.duke.edu/artifacts/1192


O chocalho sagrado do Vodou, o asson, preso com contas e contendo segredos é hoje o objeto sagrado que identifica o houngan e a mambo do Vodou. O asson como símbolo do houngan e da mambo asogwe, entretanto, é um testemunho à importância da creolização já que o asson originalmente era um símbolo da realeza e era empunhado por poucas pessoas. Este grupo seleto de pessoas eram aqueles que descendiam da linhagem real do Daomé (Benim). A oralidade conta que estes sacerdotes, que se entende que eram 21 em número, eram reconhecidos por uma ferramenta espiritual que carregavam consigo que era chamada de asogwe. O asogwe era um chocalho de cabaça, o mesmo chocalho de cabaça que hoje chamamos de asson, uma palavra que significa uma rede de contas. Foram estes 21 sacerdotes que organizaram as formalidades do fatídico sevi em Bwa Kayman em 1791 que foi liderado por Boukman Dutty e Cecile Fatiman e que disparou a batalha revolucionária pela independência que durou 13 anos.


Com a independência Haitiana veio a oportunidade de se elaborar alguma forma de organização do legado espiritual encontrado no Haiti e várias formas de Vodou se formaram. A maioria delas eram trabalhadas sem nenhum asson, especialmente no norte do Haiti, no qual a herança Africana era mais conservada e as formas de Vodou chamadas geralmente de Fran Ginen, Guiné franca, foram transmitidas dentro de famílias com a memória da linhagem intacta. Estas linhagens usavam um kwa-kwa (uma maraca simples) em sua maioria para os trabalhos com os Lwa e com os ancestrais. Elas não faziam o kanzo, que é o nome para a iniciação nas linhages asson. Ao invés disso, elas tinham uma cerimônia tripla chamada de kanzwe que era basicamente sevis tet, manj tet, lav tet e a um couche de três dias em honra aos ancestrais e ao met tet do iniciado. Isto era considerado suficiente para aqueles de Fran Ginen para afirmar sua conexão com a Guiné. Esta maneira também era chamada o caminho da água do Vodou, pois ao trabalhar com água seriam desenvolvidas a clarividência, profecia, memória e sonhos com o eixo vital do Vodou sendo praticado.


O que eles tinham nessas linhagens Fran Ginen era o boule zen, as panelas ferventes que serviam para aquecer os Lwas do hounfor por meio do contraste. Este ritual foi tomado junto dos elementos de água de Fran Ginen a fim de criar o ritual de iniciação chamado de kanzo das linhagens do asson. Kanzo literalmente significa “prender o fogo”. O kanzo foi desenvolvido primeiro no norte do Haiti, em 1840-60, pelos descendentes destes 21 sacerdotes que garantiram o começo independência da nação Haitiana. O objetivo era garantir uma sucessão real verdadeira àqueles que não eram puramente Africanos e também era preservar a rica herança da espiritualidade Haitiana como a encontramos nos catálogos abundantes de espíritos detalhando as 21 nações dos Lwas. Era uma maneira de dar o sangue real aos que eram plebeus por meio de uma passagem literal do fogo real! Um ato enorme de generosidade espiritual que foi amplamente rejeitado no norte do Haiti devido a reservas com o uso excessivo do fogo e também com a falta de necessidade para aqueles que ainda mantinham viva a memória de suas origens.


Consequentemente, o kanzo viajou ao sul e encontrou um ambiente mais hospitaleiro em áreas mais urbanas como Porto-Príncipe, Jacmel e Leógâne. Cidades como Goâve, a casa de Milo Rigaud, conseguiram manter uma aceitação bela tanto de Fran Ginen quanto do fogo Ginen que eram passados pelo kanzo. A viagem até Porto-Príncipe do norte demorou algumas décadas e, portanto, encontramos que as casas mais tradicionais e “antigas” de Vodou Kanzo em Porto-Príncipe datam de aproximadamente 1920.


A história do asson no Vodou é um testemunho à beleza da generosidade espiritual, à vontade de se preservar a memória e à ausência de egoísmo espiritual por meio do oferecimento do fogo real do asson como um meio de acordar aqueles poderes reais em pessoas distantes em memória e legado da Guiné. Foi esta atitude que de deu status igualitário em importância aos Lwas Rada, os Lwas originais da África e aos Lwas Petwo, as forças espirituais que se formaram no novo mundo, no Vodou Asogwe Haitiano. O Vodou é fogo e o Vodou é água. O Vodou é óleo e vinho fusionados alquimicamente, uma impossibilidade feita possível por meio da dança estrelar dos Lwas lançando-se pela teia do mundo como contas, vértebras e segredos... portanto, naturalmente, quando o asson é balançado, os Lwas também o são e quando os Lwas são balançados, nós também somos. Somos balançados para dentro da memória da Guiné que nos infunde com a sabedoria secreta que nos permite mexer no caldeirão de água até que este se inflame!


Ayibobo!

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