• Eduardo Regis

Agassou: um Lwa com sangue de leopardo

Frater Vameri


Que muitos espíritos Africanos são entendidos como ancestrais divinizados não é uma novidade. Ainda assim, nem sempre sabemos quais estão nessa categoria ou muito menos conseguimos traçar a linhagem. Em Agassou temos um Lwa que é considerado um desses casos e sua história é muito curiosa.


Agassou é um herói mítico e seria filho de uma princesa e um leopardo (ou de uma pantera). Outra versão conta que sua mãe seria um leopardo fêmea e seu pai, um rei. De toda a sorte, mantem-se conservada a noção de que um de seus pais seria um grande felino. Agassou é o ancestral mítico dos Reis de Aladá, Abomé e de Porto Novo. Sem surpresas, estas dinastias têm como um de seus símbolos o leopardo.


Contam as histórias que Agassou foi trazido à Ilha de São Domingos por ordem de Ayida Wedo. Sua missão era ensinar a prática do Voudou aos escravos para auxilia-los a suportar os terríveis horrores daquela situação. Durante a travessia do mar, ele teria sido auxiliado por caranguejos, por isso, no Haiti, o caranguejo é uma de suas apresentações. Outra versão conta que ele teria vindo junto da frota de marinheiros de Agwé (da qual faria parte até hoje).


Agassou é o Lwa que zela pelos mistérios das tradições do Antigo Daomé e é muito associado à ancestralidade. Além disso, faz parte do grupo de Damballah e é frequentemente compreendido como companheiro de Silibo. As relações entre os Lwa são sempre complexas e multifacetadas e quando nos debruçamos sobre elas, podemos ganhar insights valiosos. Por exemplo, é possível que a conexão com Damballah seja uma expressão de sua preocupação com a pureza ritualística, já que é um guardião de tradições.


Quando um servidor é possuído por Agassou, por conta de sua imensa associação aos leopardos (ou panteras), este geralmente curva as mãos em formato de garras. Apesar disso, é curioso notar como no Haiti, por conta da travessia pelo oceano, Agassou é compreendido como um Lwa aquático.


Um de seus epítetos faz referência ao espelho e o proclama como o “Agassou na superfície dos espelhos” ou algo similar a isso. O espelho, nesse caso, pode se referir ao espelho d´água, ou seja, ao grande oceano. Ainda, superfícies reflexivas geralmente têm associações aquáticas. Entretanto, é interessante notar que nas Américas, mais especificamente entre os Astecas, havia uma divindade associada aos espelhos que tinha a forma de uma onça. Embora não exista qualquer relação direta conhecida entre esta divindade Asteca, Tezcatlipoca, é curioso pensar nessa coincidência de associações.


A mistura de homem e de animal também traz à mente a capacidade de transformação corporal ou a capacidade xamânica de se transformar em determinados animais para descer ao submundo. Como o mar foi um local onde diversos Africanos foram lançados mortos ou para a morte e acabou se tornando um grande cemitério. É possível que “atravessar o mar” tenha uma conotação de catábase. Entretanto, isso é meramente especulativo, já que não parece haver no corpo de conhecimento tradicional qualquer coisa que faça referência a essa possibilidade.


Enfim, Agassou é um Lwa cuja história precisa ser conhecida, já que sua jornada de certa maneira espelha a jornada dos próprios povos que deram vida ao Voudou. Ele atravessa o mar, não por sua vontade, mas ao invés de encontrar horrores, ele aporta no Haiti para derramar ensinamentos que visam “curar” o povo. É preciso considerar que ele faz um sacrifício, pois abandona sua terra natal, a terra de seus ancestrais (sendo ele mesmo um Lwa de ancestralidade) para não deixar desamparados os que foram forçosamente levados ao novo mundo.


Agassou portanto se confunde com o próprio Voudou e é, sem dúvidas, um Lwa (assim como todos, na verdade) cujas camadas são numerosas e todas muito interessantes e enriquecedoras.

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