Para entender o Vodou Haitiano

Atualizado: Jun 5

Frater Vameri



Representação de Toussaint Lovertoure em cena da Revolução Haitiana.

O Vodou Haitiano ousa. Ousa ser uma espiritualidade praticada por negros. Ousa ser originária do país mais pobre do ocidente. Ousa desafiar preconceitos e ousa trazer o mundo invisível para junto deste mundo visível. É claro que ao ousar deste jeito, sofre. É alvo de incompreensão, julgamentos rasos, perseguição e medo. É retratado de maneira absurda.

Bonecos espetados por alfinetes. Feiticeiros malignos gargalhando enquanto vagam por cemitérios macabros em busca de corpos recentes para reanimarem. Demônios compartilhando a carne dos homens buscando aplacar suas necessidades imorais. Estas são as representações mais frequentes associadas ao Vodou Haitiano. Como não é difícil de concluir ao se usar um pouco de crítica: são todas inverídicas.

Discutir o Vodou Haitiano sem entender minimamente o Haiti é uma tarefa vazia. O Vodou está intrinsicamente ligado à história e aos costumes deste país pequeno em extensão territorial e frequentemente tão ignorado, que muitos Brasileiros sequer suspeitam que seja um país Caribenho. Claro, o Haiti não está nas rotas internacionais de praias exclusivas e hotéis all inclusive badalados. Isto, pois, é pobre, vive instabilidade política frequente e é predominantemente de população negra.

O Haiti divide o território da Ilha de São Domingos com a República Dominicana. Sua característica mais conhecida, infelizmente, é sua pobreza acentuada. Imerso na porção ocidental do planeta, ele é seu país menos favorecido economicamente. Como há diversos países Latino-Americanos em situação delicada no quesito poder econômico e qualidade de vida, é possível imaginar as consequências dessa situação na qual o Haiti se encontra. Curiosamente, em seu passado, o país apresentava uma situação bem diferente.

Em meados do séc XVIII, a colônia Francesa que viria a se tornar o Haiti era riquíssima. Ou melhor, gerava muito dinheiro, pois esse, claro, era tomado pela metrópole e pelos colonos que residiam na ilha. A grande máquina que fazia essa fortuna girar era a massa de escravos Africanos que trabalhavam forçosamente e sem recompensa financeira na ilha. De fato, nesta época, aproximadamente 90% da população da colônia de São Domingos era formada por escravos. Ou seja, a colônia era literalmente uma “empresa”. Uma fonte apenas de riquezas. Por isso, ganhou o apelido de “Pérola das Antilhas”, que, claro, só fazia sentido para os Franceses. Para os escravos, talvez fosse mais adequado chamar a colônia de “Purgatório das Antilhas” (Parafraseando GILLES & GILLES, 2009).

Estes escravos eram trazidos de diversas localidades distintas na África. Entretanto, concorda-se que é possível identificar três ramos principais de ascendência Africana dentre os mesmos. Estes ramos representariam as etnias Africanas que teriam fornecido o maior número de escravos e, por isso, suas heranças culturais teriam persistido de maneira mais evidente. Estas etnias seriam: as dos falantes de Fon (principalmente da região hoje conhecida como Benim); dos Iorubás (do que hoje seria a Nigéria); e dos povos do Congo. Assim, é nesses três ramos que se encontra grande parte dos traços culturais que acabaram formando o Vodou Haitiano.

Patrick Bellegarde-Smith chama a atenção para como deveria ser a vida dos escravos nesta colônia. O número de escravos era absolutamente muito maior do que de colonos, donos de fazendas, capatazes e do que de homens livres (contando que dentre estes, havia, claro os que não estavam diretamente envolvidos com a escravidão, como, por exemplo, sapateiros, ferreiros etc). Esta diferença certamente gerava uma palpável tensão. Os colonos inevitavelmente deviam se preocupar constantemente com um possível cenário de revolta. A solução, de acordo com Bellegarde-Smith, deve ter sido um regime de repressão cruel como quase nenhum outro. Os “donos” dos escravos teriam garantido a manutenção daquele ordenamento através da força física, do medo e de barbaridades.

De fato, o medo dos colonos e dos donos das plantations não era infundado. Revoltas muitas ocorreram. Escravos fugidos corriam para o refúgio das montanhas, onde, junto de índios e até mesmo de brancos, formavam comunidades dos chamados Maroons, algo similar aos quilombos Brasileiros. Em meio a tantas revoltas, os escravos finalmente conseguiram derrotar os seus “donos” e tomar a colônia para si. O Haiti foi o primeiro país independente da América Latina e o único que chegou até sua autonomia pela luta armada de escravos.

Isto deveria ser suficiente para garantir ao Haiti um status único na história mundial. O país deveria ser celebrado e ser matéria de estudo nos colégios, pelo menos na América Latina. Entretanto, desconheço, pelo menos no Brasil, qualquer currículo escolar que abarque minimamente a história Haitiana. Ainda, mesmo nas universidades, aparentemente, a situação não é diferente. A razão disso? Muitas. Sabe-se que a revolução Haitiana espalhou o medo na elite da Sociedade Brasileira à época*. Afinal, se havia ocorrido no Haiti, bem poderia ocorrer por aqui também. É claro, a história deve ter sido suprimida com viés ideológico. Além disso, a realidade é que se o país não for um ator importante no cenário econômico mundial, pouco ou nada interessa aos demais.

O que hoje é conhecido como a “Revolução Haitiana” foi uma sucessão de batalhas sangrentas que começou em 1791 e terminou em 1804. Destas batalhas, surgiram diversos heróis nacionais e figuras proeminentes. Entretanto, há um ator envolvido que interessa mais a este ensaio: o Vodou Haitiano.

Conta a história que em 1791, mais precisamente em 14 de Agosto, alguns escravos se reuniram no local conhecido como Bois Caiman. A cerimônia teria sido conduzida por um sacerdote de Vodou (Houngan, no masculino; Mambo, no feminino) chamado de Duty Boukman. Este Hougan era também um líder importante entre os escravos. Este encontro tinha, portanto, um caráter político, além de espiritual. Durante o encontro, Boukman conduziu uma cerimônia de Vodou, na qual os escravos teriam apelado aos espíritos por auxílio. Claro, eles não aguentavam mais a crueldade e as mazelas daquela vida. Diz-se então que uma Mambo, Cécile Fatiman, teria oferecido um porco negro a um dos espíritos do Vodou (chamados de Lwa). Esta Lwa, Erzilie Dantor, uma mãe que faz de tudo para proteger seus filhos, (e também Ogou) teria aceitado o sacrifício e, junto de outros Lwa, instigado a revolução. Sabe-se que deste dia em diante, a luta começou e a fumaça das fazendas em chamas cobriu os céus de São Domingos.

Se a história acima é verdadeira ou ainda se ocorreu como descrita, pouco importa no contexto deste ensaio. Interessa entender que esta povoa o imaginário Haitiano e cria uma conexão indissociável entre o nascimento da nação e o Vodou.

Hoje, muitos anos depois do fim da revolução, o Haiti já foi um império, tornou-se uma república, já foi tomado por ditadores, já foi alvo de intervenções internacionais e frequentemente sofre com problemas socioeconômicos gravíssimos. Sua população é quase que absolutamente negra e a língua é o Creole, uma mistura de Francês e línguas Africanas. O país já foi oficialmente Católico, hoje reconhece o Vodou, mas ainda é predominante católico, com uma crescente proporção de protestantes. Ao menos se investigarmos os dados oficiais. Na realidade, todos que estudam o Haiti concordam que apesar de todas as declarações oficiais e das estatísticas, praticamente toda a população do país está de algum modo envolvida com o Vodou.

Esta curta apresentação da história do Haiti é certamente muito injusta com toda a riqueza e complexidade de acontecimentos que levaram a formação do país e que explicam a sua atual condição. Outros eventos importantes e nomes relevantes foram omitidos, como Papa Doc Duvalier, um ditador que usou do imaginário do Vodou para governar pela força e que, dizem os teóricos da conspiração, seria o responsável pelo assassinato de John Kennedy.

Ainda, não está aqui discutido devidamente todo o cenário pós-revolução que contribuiu para o estado atual no qual se encontra o Haiti. Apesar disso, cabe ressaltar que com a separação com a metrópole, todo o esquema comercial do país passou a deixar de fazer sentido. Era preciso se reinventar, o que não é fácil. A comunidade internacional não aceitou bem um país de ex-escravos. Não era simples vender os produtos Haitianos, portanto. Além disso, a França exigiu uma “compensação” milionária pela perda da colônia, rendendo ao país recém-formado uma dívida imensa.

Entretanto, apesar do escopo limitado, esta explanação, espera-se, é suficiente para estabelecer que o Vodou Haitiano não é meramente uma religião, é um dos atores da formação da nação.


Referências:


ACKERMANN, GAUTIER & MOMPLASIR. Les Esprits du Vodou Haitien. 2011. Educa Vision Inc.

BELLEGARDE-SMITH, P. Haiti: the breached citadel. 2004. Canadian Scholar´s Press Inc.

BELLEGARDE-SMITH, P. & MICHEL, C. Vodou in Haitian Life and Culture. 2006. Palgrave Macmillian.

BROWN, K. M. Mama Lola: A Vodou Priestess in Brooklyn. 2011. University of California Press.

DEREN, M. Divine Horsemen: The living gods of Haiti. 1983. McPherson.

FERRETTI, S. Repensando o sincretismo. 2013. Arché Editora.

FILAN, K. The Haitian Vodou Handbook: Protocols for Riding with the Lwa. 2006. Destiny Books.

GILLES, J. & GILLES, Y. Remembrance; Roots, Rituals and Reverence in Vodou. 2009.

LAMENFO, Mambo V. Z. K. Serving the Spirits. 2011. Patricia D. Sheu.

MOREL, M. Além do medo. http://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/?temas=alem-do-medo. Acesso em 19/10/2019.

REY, T. & RICHMAN, K. The Somatics of Syncretism: Tying Body and Soul in Haitian Religion. 2010. Studies in Religion. 39 (3): 379-403.

RIGAUD, M. Secrets of Voodoo. 1969. City Light Publishers.

231 visualizações