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Ogou Ashade e o Mistério do Bokór

Fr. Selwanga


Ogou Ashade possui as cores vermelho vibrante, verde escura e dourada e é o médico ou herbalista feiticeiro da Nação Congo, tanto da Congo Fran (O Congo autêntico ou original) quanto da Congo Savan (Congo selvagem). Estas cores são consideradas na escala do preto com o Sol dourado radical atravessando esse mistério.


Porém, Ogou Ashade, mesmo sendo tão instrumental na Nação Congo é original dos espíritos Wangol, seu pai sendo o Roi Wongol, o Rei de Angola. Porém, no Éden do Vodou o Rei de Angola, o Roi Wongol, também é um lwa que possui os segredos da mudança de forma e é considerado um mysté muito, muito quente ligado às onças e todos os felinos. Ele é tão quente que em algumas sosieté vemos que o Roi Wongol está sincretizado com Satanás no sentido de ser força indomável, flamejante e extremamente dominadora, o que também é explicado como “Sol radical”. O Roi Wongol também é o pai de Gede Nibo e Ogou Ashade e também o pai adotivo de Ogou Badagri, Bawon Samedi e Maman Brigitte que servem como uma tríade misteriosa que sustenta os três reis, geralmente representados pelos Simbis.


O Ogou Ashade é conhecido também com o Ogou que se dedica às artes mais finas de trabalhos com metais, como joalheria e várias formas de decoração. Ele certamente sabe como produzir uma espad de excelência, mas ele também gosta de fazer que a melhor espada também seja a mais bonita. Um mistério significativo mantido por Ogou Ashade é a Nacion Anmine e aqui não estamos falando de lwas no senso comum, mas de forças elementais, blocos de construção da criação. Provavelmente achamaos aqui em seu âmago forças similares àquelas encontradas na sociedade Zangbeto na África Ocidental, na região do Togo, Benin e Nigéria, que tem por dever guardar a sociedade com proteções passivas e agressivas. Os espíritos nessa nacion são conhecidos como gad (guardião) – e por extensão djab (diabo) que são consideradas como forças que uma vez me foram explicadas como “Sol noturno”. Um gad ou guardião pode ser trabalhado dentro de pós e colocado debaixo da pele por meio de incisões ou então feito em um espírito composto de elementos secretos e cuidadosamente selecionados de maneira que se construa o gad adequado. O mesmo é válido para os djab, ainda que um djab possa ser construído de várias outras maneiras também, sempre para proteção, seja ele agressivo ou passivo. Um canto de Ogou Ashade transmite como esse lwa é o chefe desse conhecimento misterioso:


Ogou O, djab-la di lap manje mwen si sre vre?

Pa fout vre

Ogou O, djab-la di lap manje mwen si sre vre?

Men gen Bondje O gen lesen-yo

Djab-la di lap manje mwen se pa vre

Se pa vre ti moun-yo se pa vre

Sa se jwet ti moun-yo sa se blag

Ogou O, o djab diz que irá me comer, é verdade?

Não é verdade

Ogou O, o djab diz que irá me comer, é verdade?

Temos Deus, Ó, temos os Santos

O djab diz que irá me comer, não é verdade

Não é verdade, crianças, não é verdade

É uma brincadeira, crianças, é uma piada

Todos os Ogous apresentam alguma forma de pioneirismo de alguma maneira, em sendo o primeiro entre os seus em um dado domínio. O Ogou Ashade foi o primeiro bokór, e assim, a tradição do bokór legítima é sancionada por Ogou Ashade. A ideia de que o bokór seja um houngan “freestyle” que trabalha com os lwas e com djabs sem iniciação não é realmente verdadeira; apesar de que alguns achem que seja assim tão fácil. Qualquer bokór deve ser feito no pwen de Ogou Ashade de uma maneira ou de outra, mas existem muitas maneiras de se conseguir isso. O que é importante ter em mente é que os djabs são o domínio de Ogou Ashade e assim é ele que dá licença para o uso destas forças que são incrivelmente voláteis, delicadas e perigosas.

A ideia de que um bokór trabalhe com as duas mãos é real em todos os sentidos, pois um bokór de alguma maneira é alguém movido por um misté do Congo, tanto fran quanto savan que irá conferir uma qualidade feiticeira ao bokór parecida com o que temos no Palo Mayombe e na Quimbanda, cultos que são igualmente fortes em proteção e em cura, porém que lidam com entidades terrosas e flamejantes ao mesmo tempo. Neste reino nós encontramos o Ogou Ashade, o primeiro bokór de muitos.

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