O "Pwen"

Frater Vameri


Foto retirada de: http://fupretytest.blogspot.com/2013/06/haiti-home-of-voodoo-and-their-vodoun.html


Um dos elementos do Vodou que são importantes e muitas vezes carecem de uma explicação mais cuidadosa ao iniciante é o Pwen. Neste artigo, eu me baseio na tese de doutorado de Kimberly Ann Grennough-Hodges para tentar elucidar um pouco esse elemento.


Em Krèyol, pwen significa literalmente ponto. Dessa simples análise podemos inferir que esse pwen é tanto a concentração de algo quanto algo que compõe uma coisa maior. Grennough-Hodges diz que o pwen pode ser um ponto físico – uma imagem, por exemplo -, um foco de energia e que é considerado como algo vivo que participa de um equilíbrio delicado e dinâmico que faz parte da própria orientação do universo. Logo, pwen é sim um ponto, mas um ponto que dança e que balança ao sabor das ondas cósmicas que banham o Vodou.


Kimberly também nos atenta para o fato de que pwens podem ser colocados em objetos (em um objeto ritual, por exemplo), em pessoas (em determinados rituais) e que os Lwas ou são pwens ou estão intimamente associados a eles. Ainda, a autora destaca que as próprias cerimônias de Vodou são pwens. De certa maneira, o pwen é algo da magia ou a própria magia.


Essa associação do pwen à magia é interessante, pois nos permite pensar que o pwen é um poder. Há usos de pwen benéficos e há usos que poderiam ser considerados maléficos. Entretanto, não cabe classificar o pwen dentro dessa dicotomia limitante. O pwen é essa coisa que é amoral. Ele é uma coisa própria da natureza e um poder que é, ao mesmo tempo, caracterizante e expansivo.


Grennough-Hodges diz que quando há a possessão, o corpo do cavalo se torna um pwen para o Lwa. Ora, nesse caso, temos o pwen literalmente como um ponto – um ponto que define e concentra. Porém, quando pensamos na relação como um todo, temos que ao ocorrer a possessão também há uma ligação entre o cavalo e o Lwa, que nesse caso é um pwen – um ponto de encontro, uma porta de entrada para um poder maior – para o cavalo. Aqui está revelada a relação dinâmica que estabelece o equilíbrio do Vodou. Nada é unilateral, e o pwen precisa correr de lá para cá e de cá para lá - ou simplesmente não haverá nenhum poder.


Neste ponto é preciso que nos lembremos de que o Vodou gira em torno da relação do visível com o invisível. Quando falamos de uma relação, não podemos interpretá-la como uma via de mão única. Por isso, é comum que os elementos no Vodou apresentem (pelo menos) duas faces. Não estamos falando de uma religiosidade que entende que há a dispensa de um poder unilateral.


Vejamos o sacrifício – que cai na rede do dom e do contra-dom de Mauss – um poder é dado, um poder é recebido. Temos que o pwen também se encaixa nessa dinâmica. O pwen concentra e ancora, mas também serve de apoio para coisas maiores. Assim, se o sacrifício pode ser considerado um pwen para os Lwas – a ação dos Lwas, que se espera que seja disparada pelo sacrifício também é pwen.


Certos pwens são temporários, outros, perenes. Por exemplo, os Lwas nunca se extinguirão – entretanto, um objeto mágico pode perder seu pwen. Um bom exemplo disso é um dos que Grennough-Hodges dá. Ela diz que o Kanzo é uma cerimônia que dá muito pwen e que isso nunca se perde, salvo em caso condutas proibidas – por exemplo, se a pessoa fizer sexo em até 41 dias depois do Kanzo (e cabe aqui citar que em algumas casas de Vodou, tal restrição ao sexo não é considerada).


Há muito mais para ser discutido e apresentado sobre o assunto, mas acho que a leitura desse texto ajudará muito àqueles que forem se aventurar por livros e artigos. Sem dúvidas, também, entender melhor o pwen nos auxilia a compreender melhor a lógica do próprio Vodou.

Referência: Greenough-Hodges, K. A. Haitian Vodou: “Pwen” (magical charge) in ritual context.

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