O Fio Congolês

Frater Vameri



Nos textos aqui apresentados, insistimos frequentemente em destacar a herança Congolesa do Vodou Haitiano. Essa insistência faz parte de um esforço de compreensão da formação e das diferentes expressões do Vodou. Porém, não se limita a isso e é um esforço que nos permite enxergar melhor os processos Brasileiros também.


Uma vez que o tráfego de pessoas escravizadas da África Central para as Américas era intenso, temos que em diversos países há uma herança Congolesa significativa. Por exemplo, em Cuba, os escravizados de origem Congolesa organizados por herança étnica acabaram dando forma a um culto fortemente baseado em adoração ancestral que é conhecido hoje como Palo Monte Mayombe ou Regla de Congo.


No Brasil, as organizações de escravizados por etnias, como nos Cabildos Cubanos, parece ter sido mais dispersa, mas nem por isso se perdeu o elemento de nação, como podemos ver facilmente nos Candomblés. Entretanto, isso não pode ser confundindo com pureza ou com fidelidade ao que ocorria na África. Escravos do grande grupo étnico dos Bantus (África Central) foram numerosos em terras Brasileiras e apesar de monografias e estudos do início e até mesmo do meio/final do século XX insistirem que os Bantus eram donos de uma cultura plástica e mais pobre, vemos que os pesquisadores contemporâneos têm lutado para revelar que essa percepção era falsa.


Por exemplo, o culto conhecido como Cabula, principalmente registrado no Espírito Santo, era um culto de forte influência Bantu, com espíritos de mortos e de ancestrais que se apresentavam como “padrinhos” dos adeptos, sendo esses espíritos chamados muitas vezes de Tatas e o sacerdote de Embanda ou Umbanda. Mais tarde, a Cabula acaba se transformando no que era conhecido como as Macumbas cariocas e nelas são incorporados lentamente, talvez por influência dos Candomblés, os Orixás Nagôs, formando algo de estrutura muito similar ao da Umbanda. A discussão acerca da veracidade do mito fundador da Umbanda e da história de Zélio de Moraes fica para outro momento, mas de toda a sorte, vemos claramente que há um culto similar a Umbanda mesmo antes do nascimento “oficial” desta.


A presença da influência Congolesa é evidente por meio da estrutura e da ênfase na adoração ancestral – que acaba ganhando novos contornos no novo mundo – destes cultos. Quando percebemos que no Vodou Haitiano temos influência significativa dos Congoleses, pensamos, por exemplo, na plasticidade e no catolicismo Congolês, mas pensar sobre como o “gene” Bantu se espalhou de maneiras mais sutis é mais complicado. Por exemplo, embora Damballah seja derivado de Dan do Aladá, ele representa, dentre outras coisas, a água e os ancestrais – coisas que se conectam fortemente ao Congo e a Kalunga. Também podemos considerar os Gede – cuja semelhança com os Exus de Umbanda e Quimbanda sempre chamam a atenção – que apesar de serem supostamente derivados dos Gedevi, uma nação que prosperava no que hoje é o Benim, podem apresentar componentes Congoleses subjacentes.


Assim, quando estudamos o Vodou e percebemos essas nuances ou ainda quando estudamos o Palo Monte Mayombe e seus componentes Nagô estamos olhando para um grande espelho que nos permite questionar e entender melhor os processos que ocorreram em nossa própria casa.

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