• Eduardo Regis

O canto dos crânios

Frater Vameri

Entre carne, sangue e linfa, os ossos entranhados. Os ossos são saturninos por natureza. Resistem ao tempo. Nos dão forma. Ossos nos encaram mesmo depois de desanimados. Ossos de olhos vazios e mandíbulas silentes.

Porém, digo que os ossos nos falam e nos contam histórias tão antigas que somente as árvores e pedras se lembram. Ossos, árvores e pedras dividem uma natureza perene ou quase perene e estática ou dinâmica apenas para os que enxergam além do grosseiro.

Assobiam segredos e mistérios que tanto urgem por serem revelados. Os alvos ossos nossos são vermelhos por dentro e carregam os ossos amarelados deles que estão secos e inertes. Subindo entrelaçados em veias e artérias pulsantes, os ossos são flautas. Deixa de lado a descrença e escuta a música alegre que sobe pelos fêmures, ecoa na caixa torácica e reverbera no crânio!

Há tempos atrás alguém juntou sangue com sangue e construiu vida. Deste sangue engrossado foi feito mais seiva bruta de existência que espalhou o sopro animador por campos, montanhas e cidades. Sangue não se dilui, ele se concentra e concentra. Ele ganha e ganha mais e mais e torna-se finalmente espesso e coagula-se em ossos.

Quantos ossos estão dentro de ti agora? Os livros de anatomia não lhe darão a resposta sábia.

Na floresta de ossos somos mudas, mas as raízes são profundas. Raízes calcificadas em rasgos pela terra que desenham rostos e nomes cujas existências eclodem em nós. Reza esta noite pela força dos teus ossos e as mandíbulas inaudíveis serão ensurdecedoras.

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