Kalas Transyuggothianos

Frater Vameri


Arte por Davide Di Donna em https://www.artstation.com/artwork/3okJrD


Kalas é um termo não tão conhecido que surge durante a leitura do Vodoun Gnostic Workbook (VGW). Por experiência própria, sei que a leitura do VGW pode ser difícil, por isso, pensei em discutir aqui no nosso website um pouco alguns dos conceitos que aparecem por lá e que não figuram dentre os mais populares. Por influência de algumas leituras recentes, escolhi começar com esse. Não só por isso, também. Eis a razão pela qual entender Kalas é importante: são “centros” que podem ser utilizados para despertar poderes mágicos ou ainda, poderes mágicos por si mesmos.


Kalas vem de Kala (e perdoem-me caso eu cometa algum erro de grafia no Sânscrito), que, dentre muitas significações, está ligado ao tempo e também pode significar uma determinada unidade de tempo ou até mesmo de ritmo. Kala também lembra Kali – a grande Deusa negra, cuja iconografia clássica é a de uma mulher com a língua de fora, com espada, tridente e uma cabeça nas mãos e que veste também um colar de cabeças. Kali significaria negra, mas evidentemente há uma correlação entre Kali e Kalanigredo e tempo. Há aqui o indício de uma transformação alquímica que de alguma maneira conecta Kali e Kalas também. Vamos ver se conseguimos explorar um pouco disso ao longo desse texto.


Kali, na atribuição cabalística de Dion Fortune, está associada à Binah. Isso é muito interessante, pois conecta essa Deusa ao tempo (Saturno), revelando mais uma face da associação entre ela e Kala. Além disso, Binah está no topo (ou no início, dependendo de ponto de vista) do pilar da severidade, o pilar feminino. Uma das razões para que este pilar seja entendido como “severo” é que é a grande mãe (Binah) dá forma e tudo que ganha forma está destinado a “morrer”. De cima do abismo, Binah também funciona como um ponto de conexão entre as supernais e o que está abaixo – uma ligação que vai até as raízes da escuridão absoluta representada pelo inominável e inimaginável além de Kether (Plutão/Yuggoth).


A Deusa Negra, de sua posição ímpar, à maneira de um grande portal, lança os 16 Kalas de sua vulva sobre nós (o número exato de Kalas é motivo de grande discussão entre as linhagens Tântricas, mas ficaremos com 16 que é o número que Grant utiliza). Estes Kalas são coisas do tempo e coisas da escuridão. Eles são também poderes mágicos. Que estejam sendo emanados de Kali - a consorte/parte complementar de Shiva – não é por acaso, afinal, Kali tem um aspecto Lunar, como veremos mais adiante. Os Kalas (nos explica David Gordon White) estão conectados também à Lua. Esses “dígitos Lunares” (também de acordo com White) estariam relacionados ao ciclo Lunar. Assim, uma vez que a Lua se preenche ao longo do ciclo, ela ficaria repleta desse “néctar” que, finalmente, vazaria dela na forma de um poderoso elixir de vitalidade. Aqui temos uma conexão clara entre a Lua e Kali: signos do feminino e da escuridão. Além do mais, cumpre lembrar que a Lua também é uma senhora do tempo, embora dos ciclos menores, enquanto Saturno regeria os grandes ciclos.


Aqui o simbolismo é claro. Kali é a mulher que está emanando, ou seja, “secretando” e “menstruando” esses Kalas ao longo do tempo, de acordo com o ciclo Lunar. De fato, a Lua negra, o ápice da Lua minguante, é um período auspicioso para Kali, assim como a Lua Nova. Em ambas as ocasiões, festivais em honra de Kali são celebrados em partes diferentes da Índia. Vale lembrar que a testa de Kali é “luminosa como a Lua” e que dela está sempre escorrendo ou saindo Amrita (Amrit) - o néctar dos Deuses que confere imortalidade. Notando bem o olho na testa de Kali é clara a similaridade com a vulva e isso conecta com os Kalas sendo “menstruados”. Ainda, é evidente a conexão com o Ajna Cakra.


O discutido no parágrafo acima é base para diversos ritos de linhagens Tântricas e as implicações disso e desses ritos são variadas. É possível entender ainda que os Kalas, como pedaços da Lua, sejam também uma marcação de tempo (como um grande relógio) que funcionaria para que certas qualidades ou “poderes mágicos” sejam despertos e trabalhados. Outra maneira de se enxergar o processo seria: do nigredo de Kali são secretados os 16 Kalas – que podem ser visualizados como multicoloridos, como a cauda do pavão.


Para Kenneth Grant, os 16 Kalas são complementados pelos seus reflexos – somando então 32. Este número encerra em si diversas conexões, sendo a mais óbvia e direta aqui com a árvore da vida que tem 22 caminhos e 10 Sephirah. No mínimo, podemos entender que a árvore da vida seja um mapa dos Kalas e de seus poderes mágicos. A partir disso as associações são quase infinitas. Não surpreenderá o leitor também saber que os Kalas estão associados a fonemas do Sânscrito – um paralelo curioso com a conexão da árvore da vida com as 22 letras do alfabeto Hebraico.


Assim, Kether (Plutão/Yuggoth) representaria um dos Kalas e sabendo que Kether é o ponto de concentração primeiro da manifestação, necessariamente considera-se que há algo além. Esse é um ponto fundamental e aqui eu tentarei puxar a relação entre as regiões para além de Yuggoth e os Kalas. O que se encontra exatamente nestas regiões é matéria para discussão, mas evidentemente parece ser desse espaço transyuggothiano/transplutoniano que se originam os Kalas. Por isso, pode-se pensar que esses poderes ou centros, os Kalas, são ligações direta com o divino em sua forma mais fundamental.


Kali, que é uma forma do tempo (ou pelo menos talvez possa ser compreendida assim), é um filtro pelo qual percebemos a manifestação. Estamos todos aqui, manifestos e sob o julgo do tempo, afinal de contas. Entretanto, essas raízes da divindade, os Kalas, podem ser despertos no corpo humano por meio de certas técnicas. Os mantras, principalmente, podem ser utilizados. É importante nos lembrarmos de que os 16 Kalas têm associações com fonemas do Sânscrito. Qualquer que seja a técnica utilizada, o “mecanismo” pela qual ela funciona já foi alvo de especulação. David Gordon White comenta que a ideia seria “sobrepor o corpo da divindade com o corpo humano” e assim despertar esses Kalas. Em outras palavras, o processo passaria pela identificação com a divindade.


É possível que através da ativação desses “centros de poder” possamos até mesmo ir além do tempo e alcançar as regiões mais ermas do universo. Através do portal de Kali podemos trabalhar esses poderes mágicos, um trabalho orientado pela Lua. Dominar ou despertar os 16 Kalas seria, de certa maneira, a jornada de percorrer os caminhos e ter a experiências da Sephirah. Parece claro que despertar os Kalas no praticante é um desenvolvimento fundamental no trabalho mágico.


Bibliografia:


Grant, K . O Renascer da Magia.

Grant, K. Alesteir Crowley e o Deus Oculto.

Grant, K. Cults of the Shadow.

Grant, K. Outside the Circles of Time.

White, D. G. The Alchemical Body: Siddha traditions in Medieval India.

Bertiaux, M. The Vodoun Gnostic Workbook.

Fortune, D. A Cabala Mística.

Harding, E. U. Kali: The Black Goddess of Darkshineswar

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