Jesus e Zonbi

Frater Vameri





Recentemente um amigo me apontou o artigo de Elizabeth McAllister que uso hoje como base para a discussão. Trata-se de um estudo interessantíssimo no qual a autora faz uma análise dos Zumbis, caindo necessariamente em uma discussão sobre o Vodou Haitiano. Eu gostaria de destacar um simples relato que ela levanta nesse estudo, pois acredito que ele seja belíssimo e que comunique muito acerca dos mecanismos que estruturam o Vodou Haitiano.


Permitam-me citar McAllister diretamente (tradução minha):


“Alguns Vodouistas entendem que Jesus foi o primeiro zonbi. O mito conta que a tumba de Jesus era guardada por dois soldados Haitianos, que, de maneira inescrupulosa, roubaram a palavra secreta que Deus usou para ressuscitar Jesus. Os soldados roubaram a palavra e a venderam e esse segredo roubado agora é parte dos segredos dos feiticeiros”.


Essa passagem é repleta de significados incríveis. Tentarei dissecar, utilizando alguns argumentos que a própria McAllister apresenta e outros mais. O fato de Jesus ter sido o primeiro zonbi liga diretamente e sem possibilidade de ruptura o Vodou ao Cristianismo. Aqui, entretanto, o Cristianismo não só se torna parte do Vodou, mas é um ato de “roubo” que o faz ser apoderado. Em uma inversão de valores, o “oprimido” rouba o ”opressor” e usa das armas dele para se fortalecer. Essa é uma interpretação poderosa do próprio processo de sincretismo que mais do que mera substituição por resistência, pode ser compreendido como “incorporação” por resistência (e outros fatores).


Vejamos agora como a tumba de Jesus poderia ter sigo guardada por dois Haitianos. Ora, o Haiti nasce como nação independente em 1804 e como colônia em 1492. Estamos muito longe do tempo de Jesus para falar em “Haitianos”. Bem, a chave interpretativa neste caso não pode estar na formalidade, mas sim na familiaridade. Os Haitianos se entendem como uma nação Africana. Tanto é assim que muitos entendem que após a morte eles irão para a Guiné (África), sua casa, e deixarão o Haiti para os seus verdadeiros donos (os indígenas que foram massacrados). Logo, “Haitianos” pode ser substituído tranquilamente por “Africanos”. Se parece haver algum absurdo nisso, não há, já que o Império Romano era multiétnico que incluía cidadãos oriundos da África. Ou seja, a história, uma alegoria, claro, não parece tão absurda assim – nem mesmo para uma alegoria. Além disso, ao classificar os soldados como “Haitianos” temos outra maneira de afirmar que o povo do Haiti é, de fato, Africano.


Os Haitianos “roubam” a palavra secreta que Deus usa para ressuscitar Jesus. Aqui temos o roubo que é julgado como “inescrupuloso” e talvez assim o seja para forçar uma dicotomia entre o sagrado e a magia – uma velha discussão que no Haiti toma a forma da eterna rixa entre Mambos e Houngans e Bokors. Embora, na realidade, esses limites sejam muito mais borrados do que alguns queiram admitir. Assim, a feitiçaria toma um caráter que a difere da religião, ao mesmo tempo em que se utiliza dos recursos divinos. Reforça-se assim a ideia de mão direita e mão esquerda e a ideia de que é a circunstância que define o que é magia e o que é religião, algo bem Maussiano.


Outro ponto importante: os Haitianos roubam a palavra de Deus e a vendem. Entretanto, qualquer um que utilize a palavra de Deus não criará um morto ressuscitado como Jesus foi, pois o zonbi é, por definição, uma ressureição imperfeita ou maculada – lembremos que o zonbi usualmente não tem controle das suas ações. Temos então a dicotomia entre os atos de Deus e o ato de feitiçaria, colocando a ordem divina como definitivamente mais poderosa, já que é a original e também sem equívocos. De toda a sorte, o roubo e a utilização de um segredo desses, mesmo que de maneira imperfeita ou talvez corrupta, demonstra sem sombra de dúvidas o grande poder dos feiticeiros e corrobora para o engrandecimento das práticas espirituais que os sustentam.


A passagem citada por McAllister interconecta de maneira muito complexa e própria uma série de noções que são estruturantes do Vodou Haitiano e do próprio Haiti. A discussão ora apresentada, acredito, serve como um exemplo simples e bem rápido de como a análise das histórias e mitos espirituais podem nos revelar muito sobre as práticas e sobre o povo na qual estão circunscritas.

Referência:


Elizabeth McAlister. Slaves, Cannibals, and Infected Hyper-Whites: The Race and Religion of Zombies.Anthropological Quarterly. George Washington University Institute for Ethnographic Research .Volume 85, Number 2, Spring 2012 .pp. 457-486

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