• Eduardo Regis

Gran Bwa: a árvore dos mundos

Frater Vameri

O Lwa conhecido por Gran Bwa é fundamental no Vodou. É um espírito muito complexo, justamente por sua natureza e pelo tanto de simbolismo que abarca. Parece-me que a literatura, por mais que tente, falha em passar ao leitor a centralidade deste Lwa. É possível (melhor, é certo) que eu também falhe nessa mesma tarefa. Foi necessária muita leitura e observação dos rituais para começar  (e enfatizo: começar) a compreender como Gran Bwa toca todo o Vodou e como, sem ele, simplesmente não há como realizar certas cerimônias importantes.


Gran Bwa é o regente das matas e de seus habitantes: animais e plantas. Poderíamos parar aqui a descrição e desenvolver um verdadeiro tratado acerca disso. A sociedade Haitiana apresenta um componente rural fortíssimo. Eles são um povo de contato com a terra e com a natureza. As árvores são sagradas para diversos Lwas e as plantas tem papel litúrgico e também medicinal. Além disso, a floresta é reconhecida em diversas culturas como um lugar especial e aqui, no Vodou, não é diferente. Há poder na habitação natural. Há mistério e força na morada das plantas e das criaturas. Essa potência é a própria presença de Gran Bwa e talvez até sua própria definição.


Mambo Vye Zo Komande LaMenfo consegue destacar de maneira interessante a importância de Gran Bwa quando nos lembra que seu veve talvez seja o único no qual figura um rosto. Parece algo absolutamente irrelevante, mas sugere um cuidado e também uma impressão poderosa passada por este Lwa. Pelo veve, Gran Bwa teria a forma de uma grande árvore antropomórfica, com um rosto entalhado no tronco, grande e bem expressivo. É curioso que Lwas que são representados de fato por figuras humanas, não tenham essa caraterística em seus veves. Talvez seja uma maneira de codificar mais claramente algo tão abstrato. 


No caldeirão do sincretismo, Gran Bwa foi identificado como São Sebastião. Este fato é atribuído ao Santo estar amarrado a uma árvore. De certa maneira, no imaginário, São Sebastião se torna a "cara" da árvore, a representação do Lwa que figura até mesmo no veve. O Santo e o tronco tornam-se um só, uma figura composta que ganha um novo significado. Pensando bem, é uma representação perfeita do próprio processo de formação do Vodou.


É importante destacar que a árvore com a qual Gran Bwa é identificado é a mesma espécie que é representada pelo Poteau Mitan, ou poste central, do Hounfor. Cumpre lembrar que esse poste, como um elemento de ligação, permite a conexão do visível com o invisível. Assim, é claro que esta ligação passa, de alguma maneira, por Gran Bwa. Isto provavelmente quer dizer que sem a ligação com a natureza e com os lugares intocados, onde a criação se expressa de maneira mais originária, as pessoas não conseguem alcançar as coisas mais sutis. É uma lembrança de que a vida deve ser vivida com vistas para a essência do homem também, jamais renegando sua ligação com todo o resto da existência.


Também entende-se que Gran Bwa seja o guardião de Vilocan, a cidade dos Lwas, que jaz debaixo das águas. Também é identificado como o Senhor da ilha submersa, ou Ginen. Isto tem a ver, claro, com sua ligação entre o visível e o invisível. Além disso, destaca a centralidade das matas e da natureza na composição do universo do Vodou. De alguma maneira, elementos essenciais da religião estão "guardados" pelo mistério das florestas e da vida animal. Em uma leitura rasa isso pode parecer mero animismo, mas a complexidade inserida nesta ideia não pode ser abarcada por um mero conceito como esse.


Sua identificação com uma árvore e com o local de moradia dos Lwas e dos ancestrais aponta também para elementos do esoterismo e do Catolicismo. É possível especular que seja uma representação da Árvore da Vida, o esquema cabalístico de representação do universo (em uma de suas interpretações). Isto sugere que Gran Bwa seja a natureza como expressão da própria estrutura do universo. Outra associação possível é com o Jardim do Éden. O local onde o homem estava mais próximo da divindade antes da queda. Gran Bwa pode ser também esse próprio Jardim, o que reforçaria seu poder de ligação e sua identificação com o Poteau Mitan. Isto também faria sentido dentro do contexto de sua regência sobre a ilha submersa.


Por conta de sua centralidade como detentor dos mistérios das folhas, Gran Bwa é um dos grandes "magos" do Vodou. Sua força é fundamental para a feitura de uma wanga. Sua presença é indispensável nas cerimônias de sacerdócio. As folhas, claro, são indispensáveis para o funcionamento ritualístico e para as operações mágicas dentro do Vodou. Portanto, não é difícil compreender a razão pela qual este Lwa é um mestre da magia.


Como adiantei no início do texto, sinto que não logrei êxito em transmitir verdadeiramente o protagonismo de Gran Bwa no Vodou. Não fico triste. Não poderia mesmo, pois ainda é um mistério que está se desvelando. Um mistério de camadas muitas e intricadas. Por exemplo, já citei em um artigo prévio sobre Ossangne, que este pode ser compreendido como um aspecto de Gran Bwa. Só esta conexão é interessante e complexa o suficiente para render páginas e páginas de desenvolvimento. Com isso, quero comunicar que Gran Bwa não poderia jamais caber nesse ensaio. Quem quiser entendê-lo melhor, pode procurar outros livros. Alguns cito nos ensaios. Entretanto, sinto que será mais produtivo simplesmente sentar-se à sombra de uma árvore frondosa e meditar sobre aquela criatura maravilhosa.

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