• Eduardo Regis

Erzulie Freda: feminilidade e perfeição no Vodou

Frater Vameri













Representação de Erzulie Freda nas histórias em quadrinhos do universo Sandman da DC comics. Arte de Dominic Stanton.


Parece-me que seja muito difícil compreender verdadeiramente os Lwas. Alguns, por afinidade nossa ou por alguma outra questão, entendemos melhor. Outros, são um mistério. Alguns apresentam faces tão complexas que o exercício de tentar desvendá-los é hercúleo. Entretanto, qualquer reflexão sobre estes espíritos revelará coisas muito interessantes. Isto fica muito claro quando exploramos Lwas como Erzulie Freda.


Freda (como chamaremos daqui para frente, por motivos de praticidade) é uma das Lwas mais populares e impressionantes do Vodou. Entretanto, uma das mais difíceis de se compreender. Aqui, cabe uma leve digressão: acredito que a compreensão acerca de espíritos só pode ser obtida de maneira minimamente satisfatória através da comunhão. Estes ensaios são meros exercícios acessórios. Assim, provavelmente não conseguiremos alcançar um entendimento claro também por aqui. Tentaremos, entretanto. Espero, pelo menos, que o leitor, caso tocado pelo texto, possa perceber como Freda é belíssima.


Geralmente ela é atribuída à sedução e ao amor. Isto provavelmente acontece, pois em possessão Freda costuma ser galanteadora e fazer propostas de casamento e de amor aos homens presentes. Por outro lado, costuma não dar muita atenção às mulheres. Ela gosta de receber presentes e de ser bajulada, o que poderia parecer o comportamento de uma jovem mimada, mas há mais do que parece neste comportamento, acredito. Contribui para esta composição o fato dela ter três maridos, o que destaca seu apetite. Ainda, há outra característica dela que aparece com frequência nas possessões e que parece não concordar com o quadro até agora apresentado: ela costuma chorar copiosamente. Alguns entendem que ela chora pois nada do que é oferecido à ela é considerado suficientemente bom. Então, ela choraria de decepção. Outros afirmam que seu choro seria causado pela tristeza em saber que em breve abandonará o mundo dos humanos e que toda aquela bajulação está para acabar.


Neste ponto, gosto da intepretação da Mambo Vye Zo Komande LaMenfo em seu livro Serving the Spirits. A mambo destaca que Freda não é sedução ou amor, mas sim perfeição. Ora, perfeição é um estado complexo. É um estado de equilíbrio onde tudo deve estar exatamente como deveria, seja para o bem ou para o mal. O amor seria então a maneira pela qual ela expressa e manifesta a perfeição no mundo.  Este amor não se resume a um amor sexual ou carnal, ele é o amor como força de união. A expressão mais óbvia é claro, é a sedução e o romantismo, mas estes não representam sua totalidade. É curioso pensar que o amor é uma força que une e que também afasta. Assim, é uma ferramenta poderosa para que as coisas se encaixem em seus devidos lugares. Poderosa e também difícil.


A perfeição de Freda é, então, a perfeição da feminilidade. É o amor de mulher. Aqui, arrisco dizer que não posso concordar totalmente com quem diz que Freda não é uma mãe (papel atribuído à Erzulie Dantor). Quer dizer, ela não é, pois não representa essa feminilidade madura. Entretanto, uma das faces mais poderosas da feminilidade é a maternidade e essa expressão transborda para as outras, inclusive para as relações amorosas. Assim, embora Freda não seja o ventre que já gerou uma criança, ela é o ventre fértil. Portanto, o amor já existe como condição e ferramenta para a geração de novas vidas. Este mistério que é tão feminino e tão repleto de beleza e de luxúria, e também de carinho, é tão central que é difícil descartar sua influência em qualquer espírito de feminilidade.


É claro que ela quer ser bajulada e desejada por todos os homens e talvez também pelas mulheres. A literatura, em geral, ignora esse aspecto da sexualidade fluida. Entendem que seu "desprezo" pelas mulheres é sinal de falta de interesse. Entretanto, as relações nunca são tão simples e alguns praticantes já notaram que Freda também flerta com mulheres. Há coisa mais perfeita do que a união dos amantes? Há algo que faça mais sentido do que quando duas pessoas que tem afinidade se encontram? Seja isso com ou sem cunho sexual, é essa união que fortalece o sentido da existência humana. "Nenhum homem é uma ilha". Certamente. Estamos todos conectados. Nada expressa isso melhor do que a feminilidade, a água que sempre encontra um caminho pelo qual percorrer e essa força que é capaz de construir uma nova vida. Podemos ignorar tudo mais acerca do feminino, mas não que todos viemos do ventre de uma mulher.


Assim, essa feminilidade jovem e exuberante de Freda é um tanto descontrolada. Nesse descontrole há poder, já que ela é levada a um nível altíssimo. Estas coisas guardam lições que mulheres poderão compreender muito melhor do que eu. Do meu viés masculino, posso afirmar que parece haver um componente de êxtase e de energia um tanto sem foco. Natural da juventude. Isto, claro, apresenta um perigo: os ciúmes, possessão e a inveja, por exemplo, podem despertar em meio a essas forças indomadas.


Há ainda outro fator a ser considerado. Ela é geralmente vista como ou uma mulher branca ou uma mulata de pele muito clara que fala Francês. Estes são atributos considerados (ou que foram considerados) chiques no Haiti. Sem surpresas, em um país marcado pela segregação racial implacável, em algum momento os oprimidos desejaram ser como os opressores, não necessariamente para exercer revanchismo, mas para escapar de tanto sofrimento. Novamente, estas caraterísticas de Freda parecem relacionadas com uma certa imaturidade, no sentido mais estrito. Ela quer ser o alvo das atenções, pois assim ela pode usar esse gatilho para despertar o amor e ela o faz da maneira mais extravagante e chamativa possível. 


A ideia que quis explorar até então é que Freda não é uma força cega de sedução e arrogância. Isto seria absurdo e unidimensional. Toda a sua construção parece apontar para mecanismos específicos relacionados ao amor e à admiração. Ela é um símbolo máximo do feminino no seu auge de beleza e vigor. A questão é que mesmo isto, nas mulheres, guarda questões mais profundas e talvez seja aí que realmente possamos começar a compreender melhor Freda.


Além disso tudo, Freda chora. Isto é fato. A razão é alvo de especulação, mas como já comentado, os entendimentos mais frequentes apontam para a insatisfação. Entretanto, se ela é o feminino expressando o amor para atingir o equilíbrio, ela chora pois a tarefa é árdua. Ela chora pelas mulheres cujo papel no mundo é central e que são tão subestimadas. Ela chora pelos homens que falham em entender como a natureza feminina é linda, forte e imprescindível. Ela chora, pois todos estamos aqui, nesta terra, sem conseguir jamais alcançar o estado de perfeição. Ela chora, pois sem a perfeição não podemos nos unir a ela verdadeiramente. Ela chora, pois ela ainda não conseguiu atingir seu objetivo. É sim uma insatisfação, mas não é vazia. A pergunta é: por qual razão não choramos junto dela?


O choro de Freda pode ser a prova de que ela não apenas desperta paixões e amores. Ela também precisa recebe-los. Talvez não por mero desejo. Talvez assim seja, pois então ela terá mesmo conseguido nos ensinar a amar. Ao bajularmos Freda e ao darmos a ela um pouco do nosso amor, ela nos ensina a devolver em igual medida o que nos foi dado. Todo o carinho e toda a atenção que as mulheres dispensam ao mundo. É realmente poderoso notar como ela coloca o amor para agir como uma força transformadora e de equilíbrio. Realmente, Freda é a perfeição ideal. Ela é uma maneira de nos ensinar a viver melhor.


Estou muito interessado em saber a visão dos leitores destes artigos sobre os Lwas discutidos. Por favor, fiquem livres para debater nos comentários aqui ou nas redes sociais.


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