• Eduardo Regis

Contato Invisível

Frater Vameri

Quadro pintado por Frater Vameri.


Acredito hoje que a quanto mais íntimo ficamos dos espíritos de um determinado sistema, mais fácil fica a interação. Na prática, isso significa que certas formalidades acabam dispensadas e que alguns atos ritualísticos tornam-se ou redundantes ou desnecessários.


Quanto maior a interação e o trabalho com um determinado espírito ou com uma classe de espíritos, mais próximos nós ficamos. A partir disso, novas complexidades podem ser colocadas, como determinadas coisas em um altar ou determinados presentes que são oferecidos e que são do gosto específico daquele espírito em particular. Essa construção, incialmente, será trabalhosa, mas com as fundações prontas, todo o resto será mais simples (provavelmente).


É possível que não exista melhor exemplo do que a própria interação cotidiana com os espíritos. Sem nenhuma experiência, é provável que ela não exista ou que seja muito tímida e frequentemente descartada. Porém, com uma relação mais forte, essas interações se tornam naturais e tornam-se até mesmo indissociáveis da vida regular. Com isto não pretendo sugerir que passemos a enxergar o espiritual em tudo, mas que passemos a viver a vida por meio de um ponto de vista muito especial. Há uma diferença clara entre atribuir tudo e qualquer coisa ao mundo invisível e entre saber que tudo e qualquer coisa pode estar relacionada ao mundo invisível. Separar o joio do trigo é um processo de maturidade que acontece junto da conexão com o espiritual.


Como os espíritos se comunicam? Ora, há tantas maneiras quanto há possibilidades de acontecimentos no mundo natural. Ou seja, infinitas maneiras. Pensamentos. Insights. Inspirações. Sensações. Fatos concretos. É certo que em algum momento algumas dessas mensagens ficam mais óbvias do que as outras. Novas formas podem inclusive se revelar na forma de atividades totalmente inéditas.


Por exemplo, notei já há algum tempo que todas às vezes nas quais entro em um transe, mais especificamente em um determinado estágio de transe, nasce em mim um desejo gigantesco de desenhar e de pintar. Não sou um grande artista e não tenho um talento ímpar, mas consigo desenhar alguma coisa que não seja um boneco de pauzinhos. Demorei um pouco para me acostumar a essa ideia do desenho, justamente por me enxergar como alguém que “não tem um jeito incrível pra isso”. Tenho certeza de que outras pessoas já se encontraram ou se encontrarão em situação semelhante. Troque aqui desenho por música, matemática ou o que quer que seja que brota em você.


E o que importa se o que produzimos quando em contato com os espíritos é esteticamente bonito ou valioso aos olhos dos críticos? A importância e a paixão estão na expressão da alma tocada pelos espíritos e a coisa que vier disso é então sagrada, pois é arte. Nesta arte, outros verão formas e cores, mas quem pintou verá muito mais e saberá que ali existem recados (claros ou escondidos).


Há uma máxima que diz “quem tiver olhos para ver verá”. Assim será com a produção sob essas condições. Os que também foram tocados reconhecerão algo. Os que ainda não foram, poderão até mesmo ser tocados por aquela ponte entre o visível e o invisível que é a construção desse símbolo por "quatro mãos".


Com isso, claro, não quero dizer que o que produzo contém mistérios incríveis ou segredos impressionantes. É evidente que estes "mistérios" e expressões são tremendamente pessoais. Decidi dividir esse ensaio e algumas telas apenas na esperança de que sirva para alguém que também está em situação parecida também passe a enxergar o valor de sua própria produção.



Outra tela produzida por Frater Vameri.


Há aqui uma união do etéreo com o material que produz uma relação fértil. Há o nascimento de uma vida e essa vida, de papel, tinta, de gesso, do que quer que seja, é forte e pulsante. Magia é também uma arte exploratória. Explorar o universo é fundamental. Olhar para dentro e colocar para fora essas fotos pode ser uma boa maneira de se começar e pode ser precipitada justamente por esses encontros.

Esse filho mágico é o fruto de um ritual de parceria estreita. Não serão precisas evocações e vibrações de nomes bárbaros e nem mesmo um robe de certa cor (mas podem ser utilizados, claro). A pessoa que está em contato com os espíritos (Como os do Hoodoo. Leiam o “Lucky Hoodoo” no “Vodoun Gnostic Workbook” para maiores informações) receberá essa inspiração e esse contato e ele será orgânico e tremendamente simples.


Para cada contato desse e para cada filho gerado haverá camadas e camadas de entendimentos e de meditações. Novas portas se abrirão e corredores infindáveis estarão livres para o trânsito. É um trabalho de autoconhecimento e também e compreensão do que está além.


Aprender a permitir que os espíritos nos mudem e nos transformem me parece ser um dos grandes objetivos da prática mágica e também espiritual. Afinal, o que estamos fazendo trabalhando com essas coisas senão são para nos mudar? Seria apenas para diversão? Apenas para ganhar um trocado a mais aqui e ali? Nada de errado com essas coisas, mas há um nome para quem se senta à mesa de um sacerdote e pede uma receita mágica de amor: cliente. Na vida somos clientes em diversas situações, mas se quisermos ser mais do que isso na magia e no trato espiritual, precisamos entender o que realmente nos move. Eu acredito que seja um desejo profundo de transformação interna e externa. Perdoem-me se me expresso mal, mas é difícil generalizar desse modo o que parece tão diferente para cada um de nós.


Portanto, se você está trabalhando com alguns espíritos e tem uma relação com eles, tente identificar como eles estão influenciando sua vida. Quais mudanças ocorreram pela ação destes espíritos? O que você sabe que eles já fizeram por você? Ou o que já lhe contaram? Mesmo que você não acredite em espíritos objetivamente e os julgue como meras partes do seu ser, isso não mudará a validade das perguntas e nem mesmo o efeito das transformações. Avaliar essas coisas pode, assim, ser tremendamente valioso.



Tela também pintada por Frater Vameri.


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