Candomblé e Vodou

Frater Vameri


Imagem de Jecosta por Pixabay.


Recentemente reclamei com amigos que faltavam na academia Brasileira estudos comparativos entre as religiosidades nativas e as dos países da América. Mantenho a reclamação, mas fazendo justiça: encontrei um estudo. Trata-se da dissertação de mestrado de Joseph Handerson, na qual ele compara brevemente o Vodou Haitiano e o Candomblé. Gostaria de dedicar a discussão desta semana a este trabalho.


Handerson destaca que tanto o Vodou Haitiano quando o Candomblé apresentam raízes nos povos falantes de Fon-ewe e no antigo Reino do Daomé. O autor começa a comparação citando o uso do termo vodoun: no Haiti, teria dado origem ao termo Vodou, que significaria a espiritualidade em si; já no Brasil, principalmente entre os Jeje e também no Tambor de Mina, o termo vodoun serve para classificar as entidades, de maneira mais próxima ao que ocorria no antigo Daomé. Cumpre notar que há também o entendimento de que o termo Vodou no Haiti possa ter vindo do Vaudoux (ver Moreau de Sant-Mery) que poderia ter derivado do Francês Vaudois que significa herege e feiticeiro.


O autor comenta com muito acerto que tanto o Vodou Haitiano quanto o Candomblé são sincréticos ou híbridos. Ambas essas espiritualidades receberam influências de diversas etnias Africanas e também do Catolicismo (lembrando que os Catolicismos Francês e Português são bem diferentes) e ainda, dos nativos da terra. Assim, é evidente que jamais poderia surgir no Haiti e no Brasil religiosidades idênticas, mas isso também aponta para o fato de que tais religiosidades apresentam sim elementos em comum e alguns, certamente, estruturantes.


Handerson entende que o Candomblé, de maneira similar ao Vodou ostenta elementos de diversas etnias de Africanos que foram trazidos forçosamente ao Brasil. Neste ponto, o autor aproxima as duas religiões justamente pela sua mistura. Isto define, certamente, que misturas, muito mais do que possibilidades de difusão, podem também ser elementos de agregação.


Ainda, equivale o Houngan ao Pai-de-Santo do Brasil. Esta é uma comparação bem direta, que dispensa muitos comentários. Temos que estas figuras são sacerdotes que tem a função de comandar os ritos. Entretanto, há de se destacar que existem diferenças fundamentais na maneira como são feitos. De toda a sorte, guardam também a semelhança de exercerem grande influência também na comunidade, como conselheiros e até mesmo exercendo o papel de curandeiro.


Handerson tenta definir o Axé dentro dos termos do Vodou e arrisca que uma pessoa que tem Axé pode ser uma pessoa que esteja com seu ti-bom-ange e Gros-bom-ange em harmonia. Ou seja, Handerson entende que o Axé é um estado de equilíbrio psíquico e espiritual e toda a força que emana disso. Neste ponto em especial, de fato, Axé parece ser comumente usado como sinônimo de energia, mas me parece que o termo abarca complexidade maior. Sem querer entrar em uma discussão longa, sinto que esta equivalência de Handerson se beneficiaria de meditações mais longas. Por exemplo, o pwen do Vodou poderia entrar facilmente nessa discussão de equivalência.


O autor elenca quatro pontos que considera principais na aproximação entre o Vodou e o Candomblé: a possessão; individualidade da divindade (ou seja, as entidades escolhem certos indivíduos para suas manifestações e não todos); o oráculo (a consulta por adivinhação); e o mensageiro (uma entidade intermediária que liga homens aos espíritos – Legba no Vodou e Exu no Candomblé). De maneira geral, essa lista não parece equivocada. De fato, a possessão é um fenômeno presente no Vodou, assim como a presença de um mensageiro. A questão da ligação dos espíritos a uma determinada pessoa aparece claramente no met-tet, assim como no Candomblé aparece no Orixá de cabeça. Sobre o oráculo, o Candomblé tem o jogo de Búzios e mais recentemente tem ocorrido a inserção do Ifá. No Vodou ocorre com frequência a divinação por sonhos, cartas e por velas.


Joseph Handerson também destaca que assim como a divisão Petwo e Rada do Vodou, no Candomblé, os espíritos também são divididos em “quentes” e “frios”. Esta divisão, no Candomblé, seria exposta pela oposição frequente em elementos ritualísticos, como branco/colorido e comida com/sem tempero, por exemplo.


Enfim, apresentei um resumo das ideias de Handerson. É interessante notar que há na academia Brasileira o interesse neste estudo comparativo, que certamente poderá revelar aspectos importantíssimos da nossa própria identidade. Entretanto, é certo que precisamos avançar mais no assunto, apesar da dissertação interessante aqui discutida e do trabalho de revisão bibliográfica sólida no qual se baseia. As similaridades e diferenças entre as mais diversas religiosidades Americanas pedem por trabalhos de campo e por mais cabeças pensando nisso.


A dissertação de Handerson pode ser encontrada aqui:


http://guaiaca.ufpel.edu.br/handle/123456789/1588

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