"Cachoeiras congeladas": altares e representações diversas no Vodou.

Atualizado: há 7 dias

Frater Vameri


Altar por David Mayo.


Uma das coisas que gosto muito de discutir no contexto do Vodou é como as representações dos Lwas são dinâmicas e inclusivas. Geralmente arranco risos quanto conto que em altar de Gede, por exemplo, você poderá encontrar de enfeites de Halloween até bonecos do Coringa ou do Beetlejuice. Eu entendo que isso possa parecer muito estranho para nós, acostumados com toda uma ideia de que seriedade e legitimidade se confundem com pompa desmedida. Ora, as Igrejas Católicas sempre se especializaram, por exemplo, em usar do bom e do melhor para suas representações – artistas incríveis, materiais nobres e por aí vai. Entretanto, quando falamos do Vodou, estamos discutindo uma religiosidade de um lugar sem tantos recursos e que, principalmente, valoriza a interação direta com o invisível. Isso, é claro, resulta em coisas inesperadas, como estas representações.


Francesco Ronzon fez um trabalho muito interessante estudando as imagens de Ogou em Belair, uma favela de Porto-Príncipe. Nesse trabalho, Ronzon encontra Ogou sendo representado por Rambo! Sim, estou me referindo ao personagem interpretado por Sylvester Stallone nos anos 80. Vejamos a figura do Rambo no pôster abaixo, que é a imagem exata que Ronzon cita em seu artigo. Não faltam em Rambo elementos típicos de Ogou: um soldado; músculos; armas; e para completar: uma faixa vermelha na cabeça (Ronzon, F. (2002). Ogun, Rambo, St. Jacques. Spiriti, immagini e pratiche cognitive nel vodou di Port-au-Prince (Haiti). La Ricerca Folklorica, (45), 53-70).




Evidentemente não basta que alguém veja semelhanças entre uma figura “pop” e uma determinada figura sagrada para que a imagem “pop” passe também a se revestir do sagrado. Por exemplo, apesar de sua brilhante atuação em “A última tentação de Cristo”, não vemos imagens de William Dafoe nas casas das pessoas ou nas igrejas. Para ser um pouco menos óbvio, não vemos também imagens do Super-Homem sendo cultuadas como Cristo, embora muitos já tenham tentando explorar as semelhanças entre as duas figuras. Logo, é preciso mais do que um processo simples de reconhecimento. É preciso que algo seja capaz de sacralizar algo que parece ser absolutamente profano.


Porém, ao invés de investigarmos a razão de nada disso acontecer com Dafoe e com o Super-Homem, vamos focar em por qual razão Rambo é identificado como Ogou no Vodou. Para isso, Donald J. Cosentino e seu breve artigo “On looking at a Vodou Altar” (African Arts, 29). Cosentino começa sua comunicação destacando justamente a variedade aparentemente desconexa de elementos em um altar de Vodou. Entretanto, é quando ele cita David Byrne (sim, o músico) que diz que os altares Afro-Caribenhos são “Cachoeiras congeladas” e “Jazz visual, constantemente retrabalhados e reativados” é que Cosentino nos dá uma clara ideia do que ele está enxergando.


O que Cosentino está nos apontando, sobre altares, é que eles são vivos. Que estão o tempo todo sendo construídos através de novas experiências, novos insights e de tudo mais que estiver dentro do contexto de vida do servidor. Na minha cabeça, o que se discute para os altares pode ser transportado sem muita diferença para a representação dos Lwas.


Então, o que será que, de fato, torna essa coleção de experiências e de representações possível no Vodou? Dar respostas definitivas é algo que não posso fazer aqui, mas minhas suspeitas orbitam em torno do fato do Vodou ser uma conexão pulsante com o invisível. Ao contrário de termos um mundo espiritual distante e “conservado”, no Vodou, temos um mundo espiritual paralelo e entremeado. Já escrevi isso antes: o mundo visível é reflexo do invisível e vice-versa. Nesse contexto, não há qualquer absurdo em se olhar para uma figura como Rambo e entender que ela seja também uma maneira de se falar de Ogou.


Assim, ao percebemos isso, podemos resistir à surpresa de ver essas representações “pouco usuais” e poderemos também nos abrir para construir nossas próprias interpretações dos espíritos e das nossas vivências. O que passa despercebido para muitos, aparentemente, é que essa plasticidade não vulgariza o espiritual, mas sim que seja a consequência da espiritualização do profano.


O que temos na representação de Ogou por Rambo e de Gede pelo Coringa nada mais é do que verdadeiramente o que Mircea Eliade chamou em seu “Tratado da História das Religiões” de Hierofania – ou seja, da manifestação do sagrado por meio do profano. É evidente que um pôster do Rambo sempre será um mero pôster – papel e tinta. Entretanto, além disso, quando colocado no altar em Belair, por exemplo, esse pôster passa a ser ponto focal da expressão do sagrado e ganha essa dimensão dupla. O importante é entendermos, parafraseando um pouco o próprio Eliade, que numa religiosidade como o Vodou que entende toda as expressões da existência como dentro de um contexto espiritual, todo objeto profano pode se revelar (ou já está revelado, talvez) como sagrado.





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