Bawon Samedi e Outros Genii locorum do Vodou

Frater Vameri



Foto de Richard Mcall por Pixabay.


Foi lendo Claude Lecoutex (Demons and Spirits of the Land) que eu tive a certeza de algo um tanto óbvio, mas que me escapava frequentemente: Bawon Samedi é um exemplo clássico de espírito protetor de um local. Neste momento muitos podem estar torcendo o nariz, mas deixe-me tentar explicar melhor minha ideia e defender o porquê dela não diminuir ou alterar a complexidade deste Lwa.


Claude Lecoutex é um medievalista famoso e seus estudos se entrelaçam de maneira muito confortável com o ocultismo, assim como os de Daniel Ogden, por exemplo. Com isso, não quero dizer que eles estejam escrevendo para ocultistas e religiosos, mas que estes deveriam ler aqueles.


Lecoutex argumenta com muita propriedade e elegância que diversas criaturas mitológicas seriam “manifestações” de espíritos locais – genii locorum. Estes espíritos, ligados fortemente a um local como uma casa, árvore ou cachoeira, por exemplo, funcionariam como protetores. Uma vez que seriam os moradores e mestres originais de certas localidades, os humanos, com sua natureza invasora e dominadora, teriam de aprender a lidar com esses espíritos. Muitos entendiam que não era possível destruí-los, então restava apaziguá-los ou fazer as pazes com eles. De fato, quando agradados, os genii locorum poderiam se revelar poderosos aliados e promover boa caça, boas chuvas ou até proteção.


No Vodou temos exemplos clássicos de genii locorum nos Lwas e nos Djabs que habitam cavernas, cachoeiras, árvores e também uma terra em particular. É muito comum que no que Jean Kerboull chama de “Vodou Familiar”, as pessoas apaziguem ou agradem os espíritos da terra na qual vivem. Em certo movimento de ecologia invisível, a manutenção desses espíritos é fundamental para que toda a terra prospere. Desagrade-os e doenças e infortúnios se abaterão sobre as pessoas.


Acordos com Djabs (espíritos agitados e perigosos) que vivem em locais ermos como cavernas são também coisa bem conhecida no Vodou. Isto parece recordar os antigos pactos com seres misteriosos da floresta sobre os quais se escuta tanto no folclore Europeu. A floresta ou o local ermo, como sempre, é um irradiador de poder e magia, pois é lá que o homem não habita e não vai sem o devido cuidado. Lecoutex lembra que antes dos cemitérios, alguns povos enterravam seus mortos na floresta, o que certamente contribuiu para o enriquecimento da fauna espiritual e criou novos nichos. Muitos dos espíritos da natureza têm íntima ligação com os mortos poderosos – como Lecoutex e Nigel Jackson apontam.


Agora me deixe então ir à parte que me disparou a ideia desse pequeno artigo. É evidente que o cemitério é um espaço construído pelo homem. Entretanto, no cemitério o homem não está com o controle. A cada nova necrópole que se ergue, um espaço natural é tomado e há de se pensar o que ocorre com os genii locorum dali. Se ficam, é possível que se transformem, mas sem poder fazer muito além de especular sobre isso, prefiro ficar silente. De toda a sorte, quando o cemitério é estabelecido efetivamente, ou seja, quando a primeira pessoa é enterrada ela se tornará uma espécie de protetor e diretor daquele cemitério – um genius loci, por excelência.


Isso é muito curioso, pois estabelece que há, de fato, uma mudança total de domínio – mas ao contrário do que geralmente vemos e que Lecoutex mostra, não de um espírito para homens, mas para outro espírito específico. Alguém poderia argumentar que o genius loci do local vai se amalgamar na figura desta manifestação do local. Não tenho como argumentar nem contra e nem a favor no momento. De fato, essa discussão está menos preocupada com gênese e mais com o papel.


Claro que ao afirmar que o Bawon Samedi e outros cumprem um papel similar ao de um genius loci, não estou querendo dizer que estes sejam exatamente definidos e limitados por isso. É que quando se discute normalmente estes Lwas, fica-se muito preso ao fenômeno da morte em si, o que me parece muito justo tendo em vista o impacto dela para nós. Entretanto, esquece-se que o cemitério é um local de interações complexas. Por exemplo, em um artigo no site “Espelho de Circe”, argumentei (com base em trabalho de Katherine Smith) que o cemitério é um grande templo de Vodou (https://espelhodecirce.com.br/o-grande-hounfor-dos-mortos/). Ora, neste templo em particular, ninguém menos que o Bawon e Brigitte seriam uma espécie do Houngan e da Mambo ultimais. Assim, chamo atenção para o fato de que algumas funções dentro do Vodou podem variar de acordo com determinados parâmetros relativos, o que novamente me leva a concluir: há um Vodou para cada Lwa.

82 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo