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Barão Samedi: um Lwa a rigor (mortis)

Atualizado: 30 de nov. de 2019

Frater Vameri














A primeira coisa que eu gostaria de destacar é que samedi significa sábado. Começo com isso, pois já ouvi algumas piadas sobre "Barão Sábado" não parecer tão imponente. Entretanto, a importância deste nome se impõe assim que começamos a pensar no seu real significado. Na tradição esotérica ocidental, sábado é o dia associado ao Saturno. Além disso, sábado é o último dia da semana, então está diretamente associado ao encerramento de ciclos. Saturno, como devemos nos lembrar é relacionado aos grandes ciclos e seu símbolo, a foice, é o instrumento que ceifa o campo e a vida. Ora, Barão Sábado é um nome não só apropriado, como deveras respeitoso.


O Barão Samedi talvez seja o Lwa mais famoso do Vodou. Parte dessa fama vem de sua popularidade no Vodou de Nova Orleães e também pelo fato da sua figura instigante ter sido apropriada inúmeras vezes ao longo dos anos por Hollywood. Além disso, o ditador Papa Doc se aproveitou de sua figura para impor o medo no Haiti, ajudando a alavancar a figura deste Lwa à notoriedade. Mais recentemente, a série American Horror Story apresentou um Papa Legba totalmente descaracterizado que se vestia exatamente como o Barão Samedi. Tão famoso se tornou este espírito, que até mesmo figura em jogos eletrônicos, inclusive como personagem jogável. A verdade é que a morte é mesmo pop. Explorar seus símbolos talvez seja uma maneira de se impor sobre ela, no fim das contas.


No Vodou, o Barão Samedi é uma das expressões da morte. Tradicionalmente, acredita-se que ele se manifesta por meio do primeiro homem morto enterrado em um cemitério. É um Lwa mais sério que os demais Ghedes (de fato, todos os Barões são mais sérios), geralmente jocosos e irreverentes. Suas vestes, com o terno ou smoking e cartola já denotam sua autoridade. Além disso, detalhes de sua indumentária denunciam sua estreita ligação com a Maçonaria, o que também contribui para sua aura de autoridade e sobriedade. Não podia ser diferente, já que este espírito é a morte em si e nem tanto um morto. A morte é inevitável e sempre um assunto a ser tratado com respeito. Nem por isso, entretanto, suas possessões são sempre cerimoniosas. O Barão pode se apresentar de maneira irreverente, só não tão irreverente quanto os demais Ghedes, talvez.


O Barão Samedi particularmente parece estar ligado com o tráfego de mortos. Ou seja, ele seria um dos responsáveis (ou o responsável) por autorizar a entrada e saída de mortos do reino destes. É importante considerar que como existem outros Barões (La Croix, Cimitière e Kriminnel) há alguma área em comum de atuação entre estes. De fato, há discussão entre os praticantes se estes seriam cada Lwas individuais ou apenas expressões do mesmo Lwa. De toda a sorte, parece evidente que todos sejam expressões do fenômeno e da força "morte" e de seus processos e estágios. Assim, é natural que guardem semelhanças.


Alguns servidores e Mambos e Houngans afirmam categoricamente que o Barão deve ser evitado. Afinal, é o espectro da morte e pode ser pouco auspicioso ter muito contato com a morte. Entretanto, outros, entendem que todo o contato é relevante, já que seria um exercício autêntico da nossa própria mortalidade. Além disso, o Barão não costuma se importar muito com os assuntos particulares dos vivos. Como a morte, ele apenas é. Nisso há uma indiferença inquietante e uma justiça estranha, porém eficaz.


É possível que a associação de homens nobres e de elite com a morte tenha surgido por conta da instituição da escravidão. Não é difícil imaginar que os senhores donos de terra fossem compreendidos pelos oprimidos como a própria morte ou como representantes dela. Nisto também pode ter aparecido a ligação com a Maçonaria, já que esta instituição chegou ao território do atual Haiti no final do século XVIII por meio do Grande Oriente da França. Homens de poder e com pouca consideração pela vida alheia usando roupas elegantes e se encontrando a noite ou nos cemitérios para reuniões secretas parece um cenário possível.


Seja como for, a figura do homem de negro que aguarda nas sombras (parafraseando Sallie Ann Glassman) se fixou no imaginário e se esta foi apropriada pela morte ou se nós construímos para a morte essa figura, não importa tanto. É assim que ela tem se apresentado nos Hounfors e qualquer um que já tenha visto o Barão andando entre os homens não deve ter deixado de sentir um certo estranhamento ao observar a morte experimentando o mundo através da máquina humana. Pensando bem, não é tão estranho. Afinal, existe algo mais humano do que a morte? Refletir sobre o Barão é uma espécie de memento mori, afinal. Que lembrando da finitude do nosso tempo possamos nos dedicar ao trabalho conhecido como vitriol.


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