• Eduardo Regis

As patas que a serpente perdeu

Frater Vameri

A serpente abre a boca e sua língua salta, bifurcada e escarlate, passeando por entre perigosas presas. É um símbolo sobre qual devemos meditar longamente. Consideremos as duas presas, a língua que se divide em duas (ou que se encontra em uma), o veneno e a cavidade em si. Entenderemos então a razão da serpente ser um dos símbolos mais significativos da feitiçaria e da arte dos sábios.

As presas surgem, afiadas e perigosas. Inoculadoras do veneno, do qual falaremos mais adiante, elas nos lembram guardiões sempre vigilantes que ameaçam aquele que ousar se meter com este animal. São duas e não uma ou três e isso nos sugere que sejam símbolos da própria manifestação e da polaridade que a constitui. Ouse desafiar o véu da manifestação e provaremos do veneno.

A peçonha é a seiva mais primal que mata ou faz delirar e que domina os nervos e mente em visões e sensações além da corporalidade mundana. Uma pequena dose desse líquido e somos perigosamente levados às portas da imaterialidade, onde só então poderemos entender o próximo símbolo propriamente. O veneno é a vassoura da bruxa e também as asas do xamã.

A língua nasce do âmago e se precipita como uma armadilha ardilosa que nos encanta. De uma, ela vira duas, aludindo a já discutindo manifestação, mas de duas também vira uma, sugerindo o ponto de encontro, a encruzilhada. Para chegarmos a esse ponto teremos sido necessariamente picados e agora nos restará ou morrer ou viver. De toda a sorte, estaremos nesse local único e talvez muito nos seja revelado. O caminho de retorno não é garantido, mas quem quiser ir além deverá jogar esse jogo atrevido.

Então seremos envolvidos pela boca. Escura, úmida e quente, como o útero materno, como o abraço da mãe que recebe seu filho de volta. Seremos devorados pela serpente e suas escamas expressarão nossas vontades. Seremos sua sinuosidade bela e seu domínio preciso e seremos nós que lançaremos a Adão e Eva a oportuna tentação.

Podemos experimentar tudo isso. É preciso arriscar, claro. Entretanto, diante de um poder como o da serpente, vale realmente a pena apenas observarmos enquanto nos indagamos, afinal, onde foram parar as patas que esta perdeu?

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