Ancestralidade no Vodou

Frater Vameri


Imagem de WikimediaImages por Pixabay


Quando discutimos Vodou frequentemente o assunto gira em torno dos Lwas. Embora isso seja compreensível, acaba causando um esvaziamento de outras dimensões relevantes dentro dessa espiritualidade. Dimensões estas que também vão impactar os próprios Lwas. Uma destas dimensões se revela particularmente importante o quanto mais nós estudamos e vivemos o Vodou: a ancestralidade.


A ancestralidade basicamente trata de nossos antepassados – aquelas pessoas que vieram antes de nós e que pavimentaram nosso caminho com seu sangue. No ocidente talvez o foco no individualismo tenha apagado boa parte da noção de família e se chegamos a esse ponto, certamente a ancestralidade já foi vítima de um apagamento muito mais significativo. Nossa relação com os antepassados costuma ser ou de ignorância ou de esquecimento deliberado. Entretanto, no Vodou isso é geralmente visto de outra forma.


Já que falamos dos Lwas, vamos a eles primeiro. Alguns Lwas podem ser ancestrais divinizados. Por exemplo, temos o mítico Agassu – ancestral da linhagem dos Reis do Aladá e do Daomé. Ou ainda, poderíamos mencionar Ogou Shangô que teria sido Rei da cidade de Oyo. O problema desses exemplos é que não podemos atestar a veracidade da vida humana desses espíritos. Se quisermos trazer a discussão mais para perto, podemos recorrer ao magistral livro “Divine Horsemen” de Maya Deren, no qual era mostra uma belíssima cerimônia realizada um ano e um dia após a morte de um parente (geralmente), na qual um dos familiares vem retirar a alma do morto de dentro das águas abissais e se coloca seu espírito em um receptáculo que será objeto de cuidados. Em teoria, esse ancestral poderá até mesmo (no devido e longo tempo) tornar-se um “Ancestral elevado” ou, alguns dirão, até um Lwa. Aqui um ponto importante: alguns praticantes – servidores – entendem que qualquer pessoa que tenha sido viva não pode ser chamada de Lwa. Para eles, os Lwas seriam apenas entidades que tiveram sua origem além da nossa vida humana. Essa discussão está além do que quero trazer aqui, mas, de toda a sorte, é importante que saibamos que não há harmonia nessa questão.


Não vamos perder a oportunidade de fazer o paralelo entre essas águas abissais e a Kalunga da cosmologia Congolesa. Um assunto que daria uma discussão à parte, mas que fica aqui marcado para que o leitor interessado possa procurar sobre a Kalunga (caso não conheça) e tire suas conclusões.


A Mambo Vye Zo Komande LaMenfo em seu livro “Serving the Spirits” coloca (em uma ordem hierárquica que podemos questionar) os ancestrais logo abaixo dos Lwas e acima dos Gede em uma escala que não mostra bem a importância, mas talvez a proximidade ao Bondye. Ao fazer isso ela automaticamente está excluindo os Gede dos ancestrais. Essa é uma discussão que causa confusão frequentemente. Os Gede são geralmente compreendidos como os mortos. Porém, geralmente se entende que eles seriam os mortos esquecidos: que não tiveram um funeral apropriado; ou até mesmo que não foram chorados por ninguém.


Assim, por qual razão os ancestrais estariam acima dos Gede nessa teologia proposta pela Mambo Vye Zo Komande LaMenfo? Seria só por proximidade ao Bondye? Bem, acho que também por proximidade com o servidor, certamente – e aqui não falo de proximidade como s sua suas naturezas fossem similares, já que a Mambo coloca os vivos ainda abaixo dos Gede. Estou falando de proximidade com os servidores no sentido de contato. Os ancestrais são os mortos que são lembrados. Eles podem até não ser conhecidos especificamente pela pessoa em questão, pois pode haver uma distância grande entre gerações, mas eles não podem ser confundidos com os mortos que são deixados para trás. Esses ancestrais são espíritos que estarão particularmente (geralmente) favoráveis a trabalhar para sua linhagem e que acompanharão seu sangue.


Os ancestrais, quando você é iniciado em uma família espiritual, também se tornarão aqueles que compuseram (compõem) a casa em questão. Portanto, em muitos Lakous há cerimônias para reconhecer essas pessoas que vieram antes. No trabalho individual, também é importante que um servidor reconheça a força da sua ancestralidade. Por exemplo, muitos Lwas que acompanham os servidores podem ser passados de maneira “hereditária”. O livro Mama Lola de Karen McCarthy Brown mostra um pouco disso. Além disso, os espíritos dos ancestrais podem auxiliar de diversas maneiras, mas é preciso estar aberto a esse tipo de auxílio.


O problema de se colocar coisas em caixinhas, como a Mambo Vye Zo Komande LaMenfo fez é que a complexidade é achatada. Aceitando a visão dela parece que relações com Gedes poderiam ser menos significativas para um determinado servidor do que as relações com seus ancestrais – mas nem sempre é assim. Aliás, as relações com os Gede são bem conflituosas. Por exemplo, em muitas casas de Vodou não se coloca Gede na cabeça de ninguém – ou seja, se seu Met Tet (Lwa “dono da cabeça”) se apresentar um Gede, como o Bawon Samedi, nestas casas (geralmente) Ogou é que tomará o lugar do Gede.


De toda a sorte, é evidente que isso não quer dizer que as relações com os ancestrais devem ser desprezadas. Pensemos no próprio Vodou e no Haiti – ambos construídos de maneira indissociável e ambos construídos pelo sangue e pelo suor dos ancestrais dos que lá vivem hoje. Ora, se hoje respiramos e temos o que temos, todos devemos uma parcela disso aos nosso pais e aos pais dos nossos pais e assim por diante. Parte da solidez da terra que nos sustenta é dada pelos ossos dos que vieram antes de nós.

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