• Eduardo Regis

A Sereia das Antilhas

Frater Vameri


Bandeira de Vodou representando La Sirèn. Retirado de: https://www.naderhaitianart.com/maxon-scylla-haitian-sequined-and-beaded-voodoo-flag-on-satin-2016-la-sirene-2mfn-34x26-sold/


As sereias povoam o imaginário há tempos. Desde antes das histórias de Homero descrevendo Odisseu passando pelas criaturas híbridas entre pássaros e mulheres até as encarnações mais recentes em animações das Disney, a ideia de uma criatura feminina sedutora capaz de "enfeitiçar" os homens vem perdurando. As razões para a presença insistente dessa figura são muitas. Entretanto, talvez seja possível imaginar, de maneira resumida, que um símbolo perdura quando este expressa um aspecto legítimo da natureza.


Pensar em Haiti e não pensar em mar é impossível. A terra que foi chamada de "Pérola das Antilhas", além de ser banhada por águas esplendorosas, foi alimentada por meio do oceano do sangue que viria a contribuir significativamente na formação de sua identidade: o sangue Africano. Portanto, é evidente que o mar e figuras marítimas são presenças poderosas dentre os símbolos desta nação. 


No Vodou Haitiano, La Sirèn ou La Sirène é a Lwa que personifica a sereia. Geralmente é representada segurando um espelho e um pente. Sua figura costuma ter lindos cabelos e uma voz encantadora. Ou seja, todas as suas características apontam para uma feminilidade exacerbada. Ela é dotada das armas que são mais eficazes em encantar os homens. Lembremos que encantar vem do Latim incantare, que guarda estreita relação com "cantar". Além disso, a qualidade marítima de La Sirène pega emprestada das marés a imprevisibilidade. Ela é conhecida por ser acolhedora como o mar calmo e também por ser implacável como as tempestades marinhas. Ela sabe oferecer amor e também a morte mais impiedosa. É realmente a expressão de uma força da natureza.


Ela é esposa de Agwe, o Lwa que possui controle sobre o mar. Sendo o mar um símbolo de fertilidade e de abundância, ela é considerada uma esposa abastada. Portanto, La Sirène também está associada à riqueza e à sorte. A associação de entidades marinhas com riqueza não é surpreendente, já que além de misterioso, o mar guarda diversos tesouros escondidos, principalmente de naufrágios. É oportuno lembrar também que o atual Haiti, no passado, estava no centro do mundo da pirataria e por toda sua busca de riquezas nas águas.


No Haiti, a superstição diz que qualquer um que mergulhar a cabeça no mar pode ser levado por La Sirèn e ou nunca mais voltar ou só retornar depois de muitos anos. Os que retornam, por sua vez, teriam grandes poderes mágicos e seriam possuidores de vários mistérios ensinados a eles pela Lwa durante o período em que estiveram em seus domínios. Isto parece refletir a própria ideia de que as sereias capturavam os homens para afogá-los, porém com um contorno de mistério. Não é difícil imaginar náufragos retornando após dias ou semanas à terra firme repletos de histórias de aparições fantásticas ou de encontros com uma sereia.


Servidores possuídos por La Sirèn podem fazer movimentos de natação, como se estivessem mesmo dentro d´água. Outros, irão pentear seus cabelos e cantar. Entretanto, em possessões mais extremas poderão até mesmo sentir falta de ar, caso a Lwa não seja aplacada com água.  Em alguns casos, o servidor poderá ser levantado e carregado, já que a Lwa não possui pernas. Caso o serviço esteja ocorrendo perto de um corpo d´água, é possível que o servidor em possessão queira se atirar neste. Por razões óbvias, isto é evitado a todo o custo. De toda a sorte, é evidente que quando em possessão, esta Lwa se comporte de maneira ou vaidosa ou que remeta diretamente a sua condição aquática.


O mar que é influenciado pela Lua, assim como as mulheres, encontra nessa Lwa então um símbolo poderoso. A sereia é encantadora, mas é perigosa. Ela é justamente como as águas nas quais se banha, convidativa, mas repleta de perigos. É fácil se apaixonar pelo mar, assim como é fácil ser arrebatado pelos encantos femininos. Por isso mesmo, é muito comum que os homens se percam nos mistérios da sereia. Aqueles que prevalecem, entretanto, ganham segredos e poderes invejados pelos demais.  La Sirèn não é vaidade vazia. Ela é a vaidade mais genuína.


Talvez seja mais fácil compreender agora a razão pela qual La Sirène é temida e adorada. Ela é desejada, pois as recompensas dos que ganham seu amor são muitas. Porém, o destino é cruel para os que não conseguem mostrar-se à altura. Por isso esta Lwa está tão relacionada ao amor. Talvez não seja assim com as próprias relações amorosas humanas? Aos que amam verdadeiramente e amam bem, tudo. Aos que não conseguem amar ou amam superficialmente, lágrimas e um afogar-se eterno em lamúrias geralmente são as recompensas. Pelo menos no entendimento popular.


La Sirène então parece expressar uma feminilidade tão linda quanto perigosa, por meio de sua autenticidade. Ela é vaidosa, pois é linda. Ela é rica, pois é valorosa. Ela é poderosa por si mesma. Esta Lwa guarda lições importantes para as mulheres, pois reflete e simboliza sua exuberância. Aos homens ela também reserva lições, pois as sereias são seu desejo e seu temor em uma mesma entidade. O respeito pelo poder feminino é algo que deve ser aprendido. As sereias matarão os homens em êxtase para ensinar-lhes isso, se for preciso.


Uma nota final: é comum observar a afirmação de que há equivalência entre Iemanjá e La Sirène. Diferentes autores e praticantes expressam opiniões díspares. Alguns aceitam a equivalência enquanto outros a rejeitam ou parcialmente ou completamente. Parece claro que há um campo em comum entre estes dois espíritos, mas é sempre oportuno lembrar que estas equivalências tendem a ser reducionistas.



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