A garota e a serpente

Frater Vameri




“Havia uma garota que todos os dias ia a uma fonte buscar água. Ela sempre encontrava lá um homem desconhecido que a cortejava. Por muito tempo ela o ignorou, mas de tanto insistir, ela acaba cedendo e se casa com o homem. Ela ignorava, porém, que o homem era, na realidade, uma serpente que vivia no fundo do poço. Na noite de núpcias, o noivo retorna ao seus estado natural e estrangula a noiva com seu abraço”.


Lenda retirada do artigo “Voodoo myths in Haitian literature” de Asselin Charles na revista Comparative Literature Studies.


Essa é uma história que poderia parecer absolutamente simples, porém, ela guarda diversas camadas. O que eu tentarei fazer é descascar alguma dessas camadas de maneira a fazer uma “exegese”. O terreno aqui está virgem e vamos explorar livremente, mas ainda não muito complexamente.


A primeira coisa que é preciso perceber é que a história fala de uma garota. Automaticamente eu penso aqui no feminino e que isso não deve ser por nada – ocorre que aqui parece uma referência ao termo Hounsi que provavelmente deriva de Vodounsi – esposa de Vodum. Podemos pensar que a garota aqui é então nada mais do que um iniciado ou alguém que está no caminho de se iniciar.


O fato de ir buscar água todos os dias também não parece ser ao acaso. A água é fundamental, pois os Lwas se manifestam por vias aquosas. Buscar água é como cultivar esse caminho de água que levará aos espíritos.


O estranho que a corteja, poderia ser nesse entendimento a conexão com o espírito que está carecendo de uma ponte, de atenção, mas que, claro, ignoramos. O foco, mesmo de quem está no caminho, costuma estar constantemente precisando de uma “harmonização”, de uma “afinação”.

Quando finalmente o iniciado percebe e reconhece a conexão é hora do casamento e o casamento é quando a natureza real do espírito e da conexão consigo mesmo é revelada. A morte e o fato da esposa ter sido provavelmente devorada parecem apontar para um renascimento onde a fusão com o espírito é alcançada.


Indo além, é claro que o fato do homem ser uma serpente indica provável conexão com Damballah, assim como a água, o elemento típico desse Lwa. Se bem que poderíamos falar também de Simbi. Saber ao certo? Não podemos aqui e nem importa tanto, pois a história aceita variações na interpretação.


A morte, nesse caso, pode ser interpretada como um compromisso que não pode ser quebrado. Há, claro, outras interpretações possíveis. Porém, essa ideia de morte pelo espírito parece-me muito condizente com essa noção de fidelidade.


Estou fazendo esse exercício para demonstrar de maneira breve como podemos brincar de interpretar com base no que sabemos. Essa “ginástica” poderá ajudar a revelar novas perspectivas e assim poderemos entender o Vodou haitiano por outro ângulo.

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