• Eduardo Regis

A Escolha dos Espíritos

Frater Vameri


Imagem de Enrique Meseguer por Pixabay.


Muito sobre a feitura de Mambo e Houngan é segredo. Claro, que continue assim. Entretanto, a literatura comenta acerca de uma fase da feitura chamada de bat guerre, na qual os espíritos interessados em se tornarem os “patronos” da pessoa sendo feita “guerreiam” para ver quem ganha. É uma ideia que pode parecer estranha, mas que revela uma perspectiva única.


Geralmente, temos a ideia de que as pessoas nascem com um espírito que as apadrinha. Nas religiões Brasileiras de ascendência Africana, mais especificamente no Candomblé, por exemplo, temos a figura do Orixá de cabeça. Este Orixá, no entendimento popular, é o “dono” da cabeça da pessoa e seu posto seria definido desde o nascimento. Confirmando isso, por exemplo, estaria a ideia de que os “filhos” de determinados santos apresentariam desde cedo características típicas de seus Orixás regentes. Entende-se que existam outros Orixás do enredo de uma pessoa. Ou seja, o Orixá de cabeça não é o único a influenciar uma pessoa. Porém, esse posto “de cabeça” é sempre do mesmo Orixá.


Nem tudo é tão simples, entretanto. Há casos em que um Orixá do enredo, ou seja, um dos que acompanham a pessoa, mas não é o “de cabeça” pode ser o Orixá colocado na cabeça da pessoa, na hora de feitura. Isso pode ocorrer por diversos motivos. Não nos cabe aqui discuti-los.


No Vodou Haitiano também há uma miríade de espíritos que acompanham uma pessoa e o que vai tomar precedência como “patrono” não está definido. Esta definição só ocorre efetivamente na hora da feitura pra sacerdócio. É um conceito um pouco distinto do que ocorre no Candomblé. Entretanto, temos um tema central similar, ou seja, a definição de um espírito “patrono”.


Além disso, fica claro que no Vodou também uma pessoa recebe influência de espíritos diferentes. Portanto, embora um deles possa ser o objeto central de culto ou de adoração, há outros que participam da vida e da constituição de uma pessoa. Assim, há uma complexidade óbvia na relação de uma pessoa com seu invisível.


Em ambos os casos é curioso notar que em nenhum momento estamos falando de algo que passe pela escolha do adepto destas religiões. É um ponto importante e que muitas vezes traz um desafio imenso. Os espíritos escolhem a pessoa e não a pessoa os espíritos.


Assim, ninguém pode se declarar filho de Ogum. Ora, ou o jogo diz que é ou não é. Ninguém pode afirmar com convicção que seu Lwa “Mestre da Cabeça” é Bawon Samedi, é preciso que isso seja confirmado de uma maneira específica.


Na ocasião da confirmação, muitas vezes aparece um espírito que não esperávamos. Pode ser um espírito menos conhecido ou até um para o qual não “dávamos muita bola”. É comum as pessoas fantasiarem que seus espíritos serão os mais poderosos e populares, mas o que temos é o que temos e precisamos lidar com isso.


O primeiro passo é entender que não existe isso de “mais forte” e “mais popular”. Todos temos nossa constituição, nossa ancestralidade e os espíritos que estão conosco e que (como coloca bem a Mambo Vye Zo Komande Lamenfo) se interessaram justamente por nós no meio de tanta gente no mundo precisam ser compreendidos como relevantes e respeitados. Entender como esses espíritos e nós conversamos é um exercício de conhecimento da própria natureza. Afinal, lembremos que: temos algo deles em nós (Aqui também preciso fazer referência e recomendar o ensaio de Nicholaj de Mattos Frisvold "Exu and his work on the soul". Link: http://www.starrycave.com/2014/08/exu-and-his-work-on-soul.html).


A pior coisa que se pode fazer é birra. Ignorar esses espíritos em favor de outros que não estão “andando” conosco pode ser apenas um baita desperdício ou então até mesmo perigoso. É um exercício fundamental esse de aprendermos a valorizar e a tentar desvelar como o invisível se conecta a nós. O resultado pode ser uma recompensa maravilhosa. Uma nova relação pode ser firmar. Ainda, vários pontos obscuros sobre nós mesmos podem, finalmente, vir à luz.



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