• Eduardo Regis

A arapuca do mapa

Frater Vameri


O artigo de hoje começa com uma provocação. Sem delongas, vamos à ela: o que é magia?


Ora, alguns devem estar achando que sou louco. Definições de magia estão aí pelo mundo aos montes. Sendo a mais famosa, a do Crowley (imagino). Portanto, uma googlada rápida responderia essa questão.


O problema é que saber a definição formal de magia é pouco. Muito pouco. Afinal, eu sei o que é uma nave espacial. Sei aqui, na minha cabeça. Se fechar os olhos eu até vejo uma. Entretanto, nunca estive dentro de uma nave dessas e muito menos voei nela. Então, apesar de eu saber o que é uma nave, não tenho a experiência da nave.


Assim, embora muitos saibam o que é magia, uns tantos não tem a experiência do que ela seja. Ora, para ganhar essa experiência só existe um jeito: fazer magia. Esse fazer, além disso, irá habilitá-lo, a cunhar sua própria definição, que pode ou não concordar com as vigentes.


Existe um apelido carinhoso para esse pessoal que saca tudo de magia, mas só no plano mental: armchair magician– que poderíamos traduzir como mago de poltrona. Eu acho esse apelido engraçado, mas não sei se passa todo o conceito. Para mim, esses caras são ainda mais complicados do que meros leitores.


Primeiro, não tem nada errado em ser leitor. Estudar é bacana e preciso. Entretanto, a mera leitura é um trabalho intelectual. Ler sobre cirurgia apenas não habilita alguém a operar um paciente. Logo, quem só estuda é ou um teórico ou um curioso. Como magia não é uma disciplina teórica, temos que o leitor de magia é um mero curioso. É como alguém que se contenta em conhecer o mundo olhando o mapa mundi pendurado em sua parede. Ou ainda como se houvesse um teórico de carpintaria. Simplesmente não faz sentido.


O cara que vai explorar, bem, esse se joga e enfrente aeroportos lotados, viagens canceladas, jetlags e armadilhas para turistas. Ele se corta nas pedras das trilhas naquele paraíso natural. Ele descobre que o mapa não dá detalhes como uma pedra solta ali, uma cobra escondida acolá e umas armadilhas de dardos na entrada daquele templo ali na frente. O explorador vai viver o mapa e tem uma experiência muito diferente do teórico por causa disso. O explorador faz um trabalho vivo.


Claro que idealmente estas figuras se misturam. O explorador vai mapeando e com isso ele é também um cartógrafo e um teórico. Até aí estamos bem. O problema é quando chegamos no “cartógrafo passivo com síndrome de Indiana Jones”. O cidadão que pega o mapa que outra pessoa traçou, lê, compreende e acha que realmente percorreu aquelas trilhas, conheceu todos aqueles lugares e viveu todas as aventuras que aquele local reserva.


Por isso, o mago de poltrona, pra começar não é mago. Ele é só da poltrona mesmo. Entretanto, ao invés de se reconhecer como um curioso, ele se autoproclama como guardião dos mistérios, sem nunca tê-los vivido. Ele aponta os erros dos outros com facilidade, pois no passo a passo dos livros não tem erros. Não tem a imprevisibilidade humana e a imprevisibilidade do mundo. Ele se acha superior, pois é capaz de decorar informações detalhadas, mas não saberia como se virar em uma situação que exigisse dele a inventividade e o bom senso que vem com a experiência.


Magia é algo vivo. A magia de verdade não será compreendida apenas nos livros. Qualquer um que ouse se chamar de “mago” deve ter um ou dois calos nas mãos. Sem isso, não há o fazer magia e magia é um fazer.

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